Carta sem endereço (número 7)
Não fuja, baby! Há muita história pra rolar, descobertas que só acontecem a dois, a quatro mãos, no quarto onde a porta se fecha sob a luz indireta dos desejos. Quem fecha portas com delicadeza não quer ir embora. Eu me lembro que você ficou parado na última vez , entregue ao instante, com a boca já fora do alcance, mas de olho nas minhas pernas sob o tecido fino, as mulheres sentem essas provocações.
Quando encontramos alguém que nos faz soltar faíscas é como aspirar o vento da tempestade. Perdemos o fôlego com o excesso de ar e sabemos que fomos definitivamente tragados como um gole de bebida rara, ansiosamente aguardada, que o bebedor não troca por nada porque não há gosto que se equipare àquela sensação de sede e, depois, à saciedade incomparável que nos alimenta por dias, meses, anos, num banquete de existência plena.
É como derramar o bálsamo, o éter que tira nossos pés do chão...é tão bom ficar suspensos no ar, como se nunca, nunca mais, você ou eu quiséssemos tocar o centro da Terra porque nosso lugar é... naquele instante mítico.
Cheiro que inebria como o sândalo, vinho e mel vertidos na intimidade até perdemos os sentidos e sobrar pele a pele, pêlo a pêlo...Então, em nome dessa fome, pega meu corpo como folha de papel e faça um origami de feminilidade , provoca a beleza dentro de mim como uma pedra que se atira à água e ela se transforma em círculos que se repetem e repetem... não terminam nunca, como os movimentos da sua língua em minha boca e seus dedos percorrendo caminhos que transformam meu corpo na grande aventura. Foi assim quando me deitei com as pernas sobre o sofá, em posição de ganhar carícias que eriçam minha sensibilidade. Depois é como bala de nata, confeito que se derrete na boca, champanhe borbulhando deliciosamente sob o nariz, cócegas entre as coxas e aquela vontade de ser permanentemente sua, até que se diluam nossas identidades e, sem controle, correntes de muitos volts nos tirem dessa dimensão e nos levem ao inexplicável mistério da carne. É que este contato detona faíscas altamente inflamáveis em nossos corpos que se mantêm como tocha ritual mesmo quando a porta se fecha e partimos, dividindo vidas, separando mapas, até que longe, muito looonge, num dia qualquer, voltamos a pensar...”Não fuja, baby!...Há muita história pra rolar , quem fecha a porta com tanta delicadeza nunca quis ir embora..”. Então, me beija...