Kurukshetra again
Os cinco cavalos loucos de meus sentidos puxam a carruagem avariada de meu corpo pelas rédeas soltas. A batalha prestes a começar. Irmãos contra irmãos desde os primeiros instantes do tempo. Preparo meu arco, as flechas prontas para o vôo assassino. O condutor indaga: “Por quê não retesas o arco?”, “Porque estou em dúvida!” respondo. Ele retoma as rédeas e passa por cima de todas as coisas. Passa entre os meandros de cada vida e eu vejo nos olhos dos irmãos o medo e a mesma dúvida.
E o condutor fustiga mais e mais os cavalos enlouquecidos de meus sentidos fazendo a carruagem avariada de meu corpo aumentar a velocidade em corrida furiosa. Sou o vento da guerra, o odor da batalha que se antecipa. Sinto a energia que permeia as árvores ao redor, que faz o solo vibrar antes do canto agonizante dos guerreiros que o terão por leito final. O ar que aquece mesmo frio. Os deuses voltam as costas ao campo de batalha, todos eles, um a um. Nesse campo, regado a sangue e fúria, os deuses estarão ausentes.
O condutor então pergunta “Vistes nessas vidas que estão por cessar a essência do guerreiro?”, enquanto desvia a carruagem avariada de meu corpo para o centro torcendo os cavalos desorientados de meus sentidos. Reduz a velocidade e tudo parece girar. Respondo retesando o arco “Sim! A guerra é sua essência! Não há como voltar atrás sem deixar de ser o que se é! Como eu agora, eles apenas seguem o fluxo de sua própria essência!”. Disparei a primeira seta entregando-me à batalha sem culpa.