Nem filha de Nietzsche, nem filha de Bukowski
Que sensação péssima, horrorosa... maldita.
Odeio me sentir assim.
E o pior é que foi exatamente assim que me senti o dia inteiro; inteirinho, sem um intervalo sequer...
Não. Não pensei em me matar; não olhei pra janela achando que ela fosse o meu portal da salvação; também não pensei em matar ninguém, nem olhei pra nenhuma faca desejando enfiá-la nas entranhas do que, ou de quem me perturba.
Não me sinto incapaz – que isso fique bem claro, já que até quando estou deprimida (coisa que odeio admitir) preservo meu abundante orgulho próprio (vaidade pura e simples, confesso) –, mas me sinto inútil...
Sei que sou capaz, e isso não é novidade para mim. O problema é que algumas das minhas capacidades provam-se inúteis vez por outra, e aconteceu de uma dessas vezes acontecer hoje, deu pra entender? Não? Que se dane! Você não precisa entender... até porque não vai fazer diferença NENHUMA.
Não tô precisando de compreensão, de terapeuta, de ombro amigo, nem de ouvido amigo... Seria mais fácil se fosse isso. E isso tem nome: carência. Mas não é isso. É pior que isso.... muito pior...
Enquanto todo mundo é atacado pelas incertezas: “Quem sou?”, “Pra onde vou?”, “O que eu quero?”, eu sou atacada pelas minhas certezas.
Sei bem quem sou, o que posso ser, o que não posso ser, o que quero ser, o que quero ter, quem quero ter, quem amo, quem odeio...
Estou tão certa de mim, que o fato de que isso não é o suficiente para me realizar me corrói por dentro, como veneno de rato nas tripas do suicida que de tão burro escolhe se matar da maneira mais dolorida e lenta possível: ele escolhe matar o que existe de mais interno (não, não tô falando da alma): as vísceras, numa tentativa de descobrir se é de lá – das profundezas do organismo humano – que veio toda a dor que o fez decidir dar fim à própria vida...
Repito: não quero me matar. E se eu aparecer morta por aí, com um bilhete ao lado do meu corpo, façam-me o favor: procurem meu assassino!!! Principalmente se no bilhete encontrarem um poema, e o poema não for rimado... (1 - adoro rimas; 2 - eu bem sei que não quero morrer agora – pra ser sincera não quero morrer depois também não, mas como isso não é opção...).
E é a certeza de que não quero morrer agora que me faz sentir tão estúpida por querer matar, num momento de fraqueza, justo o que me mantém viva: o meu conjunto de certezas.
Sinto-me ridiculamente idiota (como se fosse possível se sentir orgulhosamente idiota...) por me deixar abater pelo fato de que sei quem sou, e o que quero ser, mas não sei como lidar com isso.
É insuportável estar tão certa de certas coisas e perceber que isso não é o suficiente para tê-las, ou fazerem-nas acontecer...
Perceber o quanto a súbita síndrome da inutilidade me atingiu, me surpreende. “Como pude ser tão frágil???” (“frágil” é o meu eufemismo pra FRACA – já confessei que sou orgulhosa, não já? Pois então? Não enche!).
Não gosto de me sentir fraca, e quando me sinto assim perco as forças por me sentir assim. Não suporto, não agüento a idéia de observar minhas forças e esforços perdidos pelas ruadelas mundanas que não levam a lugar algum.
Meu corpo e minha mente já vêm dando provas de que não sei lidar com minha fraqueza. Sinto dores nas costas, dormência nas pernas, dores de cabeça que mais parecem alfinetadas, tonturas, falta de apetite... Sem falar nos sonhos estranhos, com pessoas que não conheço ou com conhecidos que preferia não ter conhecido...
Não quero sofrer do mal das incertezas, só queria não ter tanta certeza que ter certeza nem sempre é o bastante...
Não quero me convencer de que o mundo é um lugar de gente fraca e vil, porque não há nada mais Nietzschiano do que pensar assim... e nem de Nietzsche eu gosto. Ele, que no auge da solidão e inconformação com o rumo que vida dele tinha tomado, passou a escrever cartas estranhas até finalmente ser diagnosticado como portador de "paralisia progressiva", que, dizem, foi de origem sifilítica. Nietzsche conviveu com a moléstia que progrediu lentamente até sugar-lhe o último sopro de vida.
Outro, que também escreveu movido pelas chorumelas, foi Bukowski; escreveu 50 livros tirando sarro da própria desgraça; usando o tom irônico pra fazer de conta que não se importava com a merda que era a vida dele – ele não teria tido tantas úlceras se realmente não se importasse ...
Os dois escrevem bem. Muito bem. Admirável e estupendamente bem. Não importa se sobre coisas boas ou ruins... Escreveram melhor do eu e do que muitos gurus de auto-ajuda que se proclamam felizes por aí, mas só ficaram famosos mesmo depois de mortos.
Eu não quero isso pra mim e sei que é isso que tem me torturado nos últimos dias.
Não quero ter que escrever sobre as mazelas, sobre as possíveis desgraças (que espero que não aconteçam) em minha vida para ser reconhecida; não quero ter que apelar pras agruras de uma vida que sempre será incompleta, só pra confortar o coração dos inconformados; não quero ser a cura para a fraqueza dos outros, nem escrever o livro de cabeceira dos pessimistas...
Posso até escrever sobre um dia catastrófico, um amor destruidor, uma amigo traidor, uma doença terminal, uma bomba nuclear... mas me recuso a escrever apenas sobre isso, assim como me recuso a tirar sarro de mim mesma, caso me enfie num buraco escuro de onde não saberei sair.
Se eu tiver o azar de cair nesse buraco, escreverei sobre a sensação de estar presa, enroscada, de me sentir esmagada pelas paredes sujas e negras; escreverei sobre a falta de ar, sobre o mal-estar, como faço agora mesmo, ao me sentir sem saída (pelo menos por enquanto)... mas não escreverei que não me importo, nem afirmarei que sei lidar com o meu fracasso, que consigo rir ao me perceber condenada ao bréu, assim como não culparei os outros fracassados, nem os demais fracos, pela fraqueza que toma conta de mim nesse, ou em qualquer outro momento.
Sim, eu me recuso a ter que ir (literalmente, ou metaforicamente) pro túmulo para me sentir recompensada por amar tanto a escrita quanto a minha própria vida.
E nessa hora o que me ocorre é que entre todas as coisas boas e idiotas que Bukowski escreveu, pelo menos uma eu entendo muito bem: “Essas palavras que escrevo são o que me mantêm livre da loucura total”. E se quer saber: de todas as minhas certezas, essa é a que me incomoda mais.