Edição 10

R. abriu a caixinha

Jarbas Capusso Filho

R. abriu a caixinha, já bem amassada e tirou o blister: dois comprimidos. Já restavam dois comprimidos. Sabia que isso não daria nem até a hora do almoço. Vestiu as calças e foi pro banheiro. Lavou a cara e engoliu os dois comprimidos ali mesmo, com a água da pia. Quando jogou a cabeça para trás, afim de engolir os comprimidos, viu os mofos no teto. De relance. Como um encosto veloz. A velha sombra do mal no seu infinito banheiro sujo. Os espíritos presos às paredes, ao mofo. Assombrações mofadas. Olhou fixamente para a sua imagem no espelho e, como sempre, duvidou de si e rogou uma praga, para àquela imagem decadente. Olhou nos seus olhos e jurou compostura na hora da morte. Jurou fidelidade aos seus mártires queridos e esquartejados na noite anterior. E nas outras. Deu uma ajeitada no cabelo com as mãos e saiu. Vestiu uma camiseta branca e calçou o tênis. Percebeu o preto de sujeira do cadarço. Percebeu o preto de sujeira de algum lugar que ainda estava por passar naquele dia. Alguma rua abjeta apertada e com feira ou alguns pensamentos sujos e isolados do resto da vida dos outros. Não fazia parte. Nunca fez. Algum bar preto de sujeira. Não estava fácil comprar comprimidos, sabia que ia andar muito de farmácia em farmácia. De loucura em loucura. Já conhecia todas e todas o conheciam. Era sempre a mesma sensação de abandono sem os comprimidos. Uma sensação de internação num hospital publico. Esquecido n’algum canto do prédio. N’algum porão com uma maca curtida pela ferrugem e o abandono na hora da doença junto de alguma enfermeira depressiva e tesa. R. e as suas intermináveis avenidas e angustias matutinas. Angustias de passagem no play groud. Angustias de areia de mar revolto. De céu cinzento. R. e as suas intermináveis caminhadas. Só quando abriu a porta é que percebeu a chuva e a primeira poça d’agua, mas não sabia que dia da semana era. Se deu conta que não saia de casa há dias. Há varias encarnações. Suas digitais estavam impressas no chão do seu quarto. Por toda a casa. Suas digitais estavam impressas no inferno de dentro. No céu da boca. Se deu conta que ainda estava vivo e não sabia como era possível uma coisa dessas. Se deu conta do tamanho do mundo e da sua distancia de tudo. Era como se quando abrisse a boca, falasse numa língua completamente diferente das outras pessoas. Esse pensamento lhe trouxe uma espécie de conforto. E pisou na segunda possa e viu o seu cadarço um pouco mais preto que naquele instante lá atrás. Alguns momentos a menos em sua vida. Alguns pensamentos a mais pra nada. Nunca foi pra coisa alguma. Toda vez que caminhava, e passou a vida fazendo isso, sua cabeça se transformava num turbilhão, num emaranhado de coisas, animais, aflições, gritos, feridas, lembranças de infância e arquipélagos fantasmas, povoados por personagens bíblicos de porre. Sua mente se transformava num covil de lobos cegos e raivosos, num coral fétido em algum lugar nas profundezas do mar morto. Era assim toda vez que caminhava. Pensou varias vezes na vantagem de ser um paralítico e não pensar mais, em não gastar os seus dias atrás de anfetaminas, em lembranças, em cães pulguentos perdidos e com fome, em algo que lhe desse um pouco de sentido, de paladar, de sono ou ira. R. perambulava pela cidade para gastar a vida, ocupar o seu tempo. O maldito tempo que deus lhe deu como castigo. Perambular a vida. Ou o que se aproximava disso. Precisava achar uma farmácia e um blister com dez comprimidos. Olhou pro cadarço. Um pouco mais preto de sujeira.