Edição 11

Impressões sobre expressões

Cassiano Monteiro

A febre voltou e eu voltei pra cá (pro computador, pro lugar que me sinto livre pra dizer, pra pensar, pra me esconder, pra me mostrar, revelar, velar meu corpo-defunto). Nos momentos de maior dor, de doença: me sinto mais puro, com mais saúde mental. Consigo ser mais honesto. Não é culto à dor, não. É que é assim comigo. Dores no corpo todo: agora. "Aquilo que não me mata: me torna mais forte".

Quando tem um acidente de carro e você vai perguntar pras pessoas próximas à colisão o que aconteceu, dificilmente você vai ter uma mesma opinião sobre o ocorrido. Vão dizer muita coisa diferente. Caso ninguém combine de dizer a mesma coisa: tudo é diferente - pra todo mundo. Pode até ser parecido, mas é diferente. Fui num show (do Arnaldo Antunes) com um brother, por exemplo, e tivemos impressões completamente diferentes. Como num acidente de carro (já escrevi sobre isso em algum lugar), quando algumas pessoas dirão que a culpa é do motorista, outras afirmarão que o pedestre é o culpado. E algumas (ainda) dirão que o carro era verde enquanto outras vão jurar (de pé junto) que era azul. A gente não culpou ninguém e nem foi um acidente de trânsito. Nada tão dramático, catastrófico. Foi apenas um show. Fomos a um show. Olhares diferentes. Impressões singulares. Como disse, não vimos a mesma coisa... Estávamos na mesma fileira, lado a lado. E olha que pensamos parecido acerca de muitas outras coisas, sobre assuntos variados até. Pra mim foi uma puta curtição. Pro meu amigo: o show "teve lá seus momentos", apenas.

Se eu for tentar me explicar ou me defender "criticamente", vou me embanar todo. Vou falar o que sinto, vejo.

Gosto do olhar do Arnaldo pras coisas do mundo e, se dizem que ele imita alguém quando dança, "sapateia", eu não vejo assim, não. Ele pode ter se inspirado naquele cara dos Talking Heads (na sua forma de dançar) e no vocalista dos Sex Pistols (no seu corte de cabelos), mas ele é muito, muito peculiar, diferente... Ímpar. Arnaldo imprime, mesmo ao se inspirar em grandes caras, sua informação obviamente original em tudo que faz: seja dançando num palco, numa letra, numa canção, num livro, num comercial de tv, etc. Você pode não gostar, mas não pode dizer que viu algo igualzinho por aí. E digo mais ainda: se for (simplesmente) assim, então o Tom Waits imita os negrões do Blues, Chico Buarque imita Tom Jobim - ele próprio (Chico) admitiu que sempre tentou imitar Jobim e que compõe ainda hoje como se o Grande Maestro estivesse "dependurado" sobre seus ombros: olhando pras suas canções, conduzindo-as. Mas são tons diferentes. Não são? Poderia, se tivesse com paciência, fazer uma lista bem grande sobre esse assunto. Mas esses dois exemplos bastam. Pra mim.

Ninguém nasce pronto. O próprio cara dos Talking Heads se inspirou em alguém, bebeu numa porrada de fontes, cervejas, cafés, pessoas...se reconheceu numa pá de caras geniais. E cabelo punk(?) é coisa antiga pra caralho: já existia nas barbearias dos índios... Índios que os ingleses generosamente mataram, dizimaram da face do planeta azul, terra, planeta marinho.

E o pulso? Ainda pulsa, brother. Melhor: "ainda pulça".

E "Ocride, fala pra mãe": dessa gripe que não passa.