Edição 11

Meu gato

Célia Musilli

nquanto escrevo, meu gato sobe na cama querendo ser gente. Estica as patas em carícias, amassando o indizível dilema de ser bicho e sentir tanto.

Enquanto escrevo, ele se lambe para mostrar que é limpo e enche as narinas de ar como um yogue.

Ele se comunica com antenas parabólicas, mexendo os bigodes enquanto balões vazios, de frases invisíveis, inscrevem-se no oceano de seus olhos. Depois dorme o sono dos gatos e ronrona como quem canta para si mesmo uma canção de ninar. Com o que sonha não sei, mas transmite leves tremores, como um vulcão pacífico.

Meu gato tem tudo o que precisa, água fresca e sereno, sacando nos muros a poesia necessária. Depois, mia como se falasse com Deus nas suas preces felinas. Xamã noturno e malandro da algazarra dos vivos.