Meu gato
nquanto
escrevo, meu gato sobe na cama querendo ser gente. Estica as patas em
carícias, amassando o indizível dilema de ser bicho e sentir tanto.
Enquanto escrevo, ele se lambe para mostrar que é limpo e enche as narinas de ar como um yogue.
Ele
se comunica com antenas parabólicas, mexendo os bigodes enquanto balões
vazios, de frases invisíveis, inscrevem-se no oceano de seus olhos.
Depois dorme o sono dos gatos e ronrona como quem canta para si mesmo
uma canção de ninar. Com o que sonha não sei, mas transmite leves
tremores, como um vulcão pacífico.
Meu gato tem tudo o que
precisa, água fresca e sereno, sacando nos muros a poesia necessária.
Depois, mia como se falasse com Deus nas suas preces felinas. Xamã
noturno e malandro da algazarra dos vivos.