Edição 11

Quase quarenta minutos

Paula Klaus

Quase quarenta minutos. Fui reclamando do sol quente e tive que correr na volta pra não tomar um banho de chuva. Andando por aí gosto de ficar observando as pessoas, os lugares, os carros parados no farol vermelho. Uma camisa que ficou pra um "reparo discreto" (foi como meu chefe disse quando pediu pra que EU fosse buscar) numa loja do shopping aqui perto, me deu um trablho danado. A nota fiscal só dizia Onde Você Sente-se bem Em Vestir-se Bem, sem identificação de corredor ou andar, nem telefone, só aquele monte de zerinhos. Que merda. Duas moças no balcão de informações, bonitas, elegantes e bem maquiadas, mas não sabiam me indicar a direção da tal loja. Perguntei pro segurança com cara de simpático, só a cara, puta dum mal educado e mal humorado, nem se deu o trabalho de ligar aquele radinho que segurava junto ao peito querendo convercer a si mesmo que restava algum orgulho da sua profissão. Babaca. Não por ser um segurança de shopping, não é esse tipo de preconceito que me atinge, mas por ser um babaca mal humorado e mal educado. Liguei pro meu chefe pra perguntar onde ficava a tal loja. "no shopping ora bolas, é só perguntar no balcão de informações ou pra algum segurança, eles se informam pelo radinho" Quase tive um AVC, ali, perto das Lojas Americanas. As senhoras que passavam por mim parariam e diriam "as drogas estão consumindo a juventude" a vendedora com dores no pés por ter que ficar estacada quase doze horas consecutivas "que inveja, pelo menos ta aí esparramada" Mas pro meu chefe o que faltava é boa vontade pra fazer as coisas, iniciativa e um mínimo de inteligência. Isso ele acha faltar em mim.
Quase desisti da tal camisa, quase fui pra casa dali mesmo. Saí, fui até a calçada e percebi que logo cairia um pé d'agua, uma garoa chata só pra me molhar e molhar a camisa e meu tênis. Não tinha um guarda chuva em mãos, então voltei pra tentar encontrar a loja maldita de camisas com defeito.
Duas voltas no mesmo corredor, duas voltas olhando feio pras moças que deveriam saber as informações, duas passadas frente o segurança mal pago. Nada, nem uma pista. Comecei a achar que aquilo estivesse sendo uma brincadeira. Meu celular começou a tocar "Trosseau Markbet (acho que era isso), é essa a loja" olhei em volta e estava de frente a ela. A vendedora me olhou, de cima a baixo, e depois me atendeu conforme avaliou ser necessário em sua introspecção. 
"Certas informções deveriam constar nessa nota, quase não chego aqui hoje" - eu lhe disse.
"Entregamos o cartão com as referências da loja aos nossos clientes, a nota é só um comprovante de compra" ela foi falando e nem prestei muita atenção, entreguei a tão discutida nota e ela voltou com uma sacola ENORME com um laço ENORME. Nem agradeci, não fiz a compra portanto não tinha nada do que agradecer, nem ela, que ficou lá pensando no meu AVC com aquele sorriso falso. Os pingos de chuva começaram a cair, os carros paravam no farol vermelho, mas não todos, as coisas fora de um shopping são bem mais normais. Corri pela calçada com aquela sacola enorme com um laço enorme pra não me molhar, os pingos começavam a cair nervosamente. Quase caí em frente a banca de jornal, e o jornaleiro se esticou pra supostamente me ajudar a levantar caso a queda vingasse. Amanhã quando eu passar, ele provavelmente vai fazer uma daquelas piadinhas sem graça e não vou mais achá-lo um jornaleiro muito bacana.
Foram quase quarenta minutos, só. E tanta coisa acontecendo em volta, tanta gente falando no celular, tanto carro buzinando, tanto moleque pedindo esmola. Trouxe a tal camisa defeituosa com seu reparo discreto cretino. Trouxe o cartão da loja também. Fugi da chuva, fugi do segurança mal educado e escapei de um derrame. Tudo em quase quarenta minutos. 
Barulho, pouca cordialidade, muito perfume exalando de velhinhas que souberam dar valor, e algumas coisas mais, a seus (provavelmente) falecidos maridos. Andar por aí, pelas calçadas de uma avenida movimentada ou nos corredores confusos de um shopping center não é tão ruim, não sempre. Apesar do mau humor que se habita em mim às vezes, eu gosto de ter o que observar por aí. Só não esqueço o guarda-chuva da próxima vez.