Frases combinadas
chegou em um momento em que nada mais parecia valer a pena. O Sol, nada mais que uma fonte de calor usada apenas pelas plantas e pelas dondocas na beira de suas piscinas. As nuvens, fumaça branca que quando por sorte ao menos dá sombra. As pessoas e animais, seres com quem não se escolhe conviver.
E por fim havia os dias. Vinte e quatro horas do mais puro nada, doze das quais se esforçava para se manter dormindo já que era incapaz e impossível alcançar o sono final de maneira digna. Só lhe restavam as pernas. Para andar. Percorrer longos caminhos entre a saída e chegada, sempre no mesmo ponto, com nada entre eles.
Se não cultivasse a apatia, esse sim, o sentimento que mais valorizava, de forma tão religiosa, poderia chorar e amaldiçoar o mundo, mas usava essa energia nos inevitáveis esforços diários. Comprar um leite, uma dose de pinga, cinco ou seis ovos. Mais do que isso era luxo, era a aceitação de uma vida da qual não pertencia.
Gostava das alturas, via-se, como as pombas, olhando de cima as coisas que ali embaixo era incapaz de alcançar. Percebia-se nos topos, mas não com intenção de pular, mas com vontade de voar, deixando por sob seus pés todo peso daquelas vinte e quatro horas amaldiçoadas de cada dia.
E imaginava o sagrado, o profano, o mitológico e o lógico. Não entendia. Porque só eles? se perguntava e seguia, acima. Nas cabeças de quem não podia e nem queria entender. Os sons, os cheiros, as sensações, nada disso lhe despertavam nada, a não ser o desejo de que algo o despertasse.
Porque tinha consciência de que é essa a principal vontade daqueles, que como ele, vagam sem destino. Vontade de se misturar, de ser igual e portanto sumir. Mas lhe incomoda suas calças sujas, o cabelo oleoso, a camiseta cinza que um dia foi branca. Lhe notam, desviam de seu caminho, o observam de canto de olho.
Diferente por natureza, notável, indispensável. A parte da escala que se usa como escada para o conforto. Carrega o peso da inconfortabilidade, sua e alheia. De dentro e do mundo. Continua andando, sem saber que ninguém sabe, que de onde ele veio, é para onde certamente voltará.