Edição 11

A liberdade é roxa

Samantha Abreu

resolveu se separar dele, decidiu nunca mais arrumar homem meloso, que a tratasse bem demais. Queria conhecer de perto a tão falada independência feminina. Ficou meses fugindo, enquanto ele a seguia implorando para que voltasse pra casa e o amasse de novo.

Mas ela, irredutível, buscava a sua própria revolução sexual. Anos mais tarde, apaixonou-se por Valdemar quando o conheceu, jogando bilhar em um bar do centro da cidade. Ele tinha um aspecto grosseiro, meio seco e direto, do jeito que ela sempre sonhou.

Em alguns meses, já estavam morando juntos e, a partir de então, ela acreditou que, finalmente, saberia o que era ser independente, mesmo vivendo com outra pessoa. Poderia experimentar a liberdade de continuar participando dos encontros femininos nas terças, no bar da Avenida Paris.

Na primeira terça-feira, enquanto bebia e ria com as amigas, Valdemar apareceu para buscá-la aos socos e pontapés. Apanhou tanto, que teve certeza de que se o tal polonês Kielowski tivesse vivido a liberdade, nua e crua, saberia que ela de azul não tinha nada.

Ela é, mesmo, muito roxa, igualzinha àqueles hematomas.