As coisas sinceras e insensatas
Bonito
ele explicando por que as pessoas vão embora enquanto eu choro e quebro
as coisas. Ele disse que eu tenho que me controlar mais e correr mais e
fumar menos e afinar meu violão, e que ele não reconheceu aquela música
que eu toquei da última vez.
Ele disse que eu era mais bonita
antes do trabalho acabar comigo e ele não entende que a gente faz
certas coisas só pra fugir e ele não entende que existam pessoas moles.
Eu expliquei pra ele que eu sou mole, que eu danço sozinha no meio da
sala e que os vizinhos não gostam de mim. Mas ele fez silêncio eu não
sei por que, de repente ele não entendeu nada, de repente ele sentiu
vergonha.
Eu fiz uma pasta com poemas de fim de noite, ele recitou
alguma coisa comigo e guardou em baixo da cama; às vezes eu cito versos
e ele não lembra, e por isso nem sente culpa.
Eu escrevo frases
soltas nos guardanapos e enfio tudo nos bolsos dele, mas ele não mexe
nos bolsos e lava tudo junto com as calças na máquina e reclama por que
todos os bolsos dele ficam manchados de tinta de caneta. Eu bebo
enquanto ele observa. Eu torço enquanto ele reza. Eu usei saias por que
ele disse que gosta de olhar minhas pernas. Ele ficou com ciúmes,
quebrou um copo, bateu num cara e foi embora sozinho.
Um dia ele me deixou dizendo que eu tinha muita tendência a não acreditar nas coisas.
Mas
eu acreditava nele ali deitado no sofá com um cigarro comido entre os
dedos, entorpecido de vinho e sono falando que não podia esquecer de
comprar novas gravatas, pegando no sono até às sete da manhã.