Edição 12

Eu só precisava de um telefone

Paulo de Tharso

__ Boa-tarde , seu Jorge. Será que eu pos...

__ Hein? O que você quer? É proibido vendedor aqui no prédio, viu?

__ Não, não, seu Jorge! Eu sou o seu vizinho! Moro aqui ao lado, ta lembrado?

__ Ah, Você é o cabeludo, né? O que você quer?

__ Olha...é que eu preciso telefonar...

__ Ah, o telefone. Foi bom você chegar. Entra, pode entrar. Cuidado com a gaiola do Arquibald.

Entrei com cuidado, esquivando-me da gaiola vazia, com a portinhola aberta, que estava no chão. O apartamento do velhinho tinha um cheiro azedo misturado com lavanda. Cheirava a mofo-abandono, mofo-foto-amarela. Paredes

mofentas, carpete mofo, xaxins cobertos de mofungos.

Ele, encouraçado em seu pijama mijado, com os pés nus enfiados em pantufos de lã esgarçada, fechou a porta e a trancou como se, lá fora existisse um inimigo mortal pronto para atacar. Virando-se para mim, apontando uma velha poltrona feita de veludo cor-de-sangue, pediu que nela eu me sentasse.

__ Obrigado, eu disse. O senhor sabe, eu só preciso...

__ Eu sei, eu sei! Não se preocupe, tudo se arranja. É só um contratempo. Não poderão nos encontrar aqui, certo? Eu sabia que você não me esqueceria! Ora, veja como as coisas são: Marula desapareceu! Nem uma carta, nem um telegrama.

Eu, sentado na poltrona, ouvia o velho falar sem entender nada, sem conseguir mover um músculo do corpo ou do rosto.

Fiquei lá, tentando compreender o incompreensível verbo que aquela boca desdentada balbuciava, confundindo minha cabeça atormentada. Eu precisava falar com Belfort. O telefone ao alcance da mão, diante dos meus olhos. Era só pegar e seguir dizendo: "sei...é claro...ãhã..." mas não o fiz

Fiquei olhando o velho. Fiquei olhando, por sobre os seus ombros arcados, as fotos amarelas pregadas nas paredes mofentas, onde jovens, em preto e branco, posavam com camisas de seus uniformes de um time de futebol, cujas cores só ele saberia dizer. Ou não mais. Fotos de soldados, garotos armados com fuzis e baionetas, cujos nomes, virtudes e fraquezas, só ele conhecia, ou não mais. Fotos da família que, certamente, o esquecera.

Porque velhice é essa merda mesmo, eu pensava. É esse abandono, essa solidão, é esse descaso. A gente finge que velho não existe, não respira, não sofre, não fala coisa com coisa, não pensa, não ama. Velho só perturba, dá trabalho, resmunga, tem incontinência urinária. Velho é um saco!

Esqueci da polícia, do Belfort e de tudo, porque tudo podia esperar. O telefone estava ao meu lado, era fácil. O velho sim, não podia esperar....

__ Ah...., eles pisotearam os canteiros de flores de minha mãe. Uma maldade sem fim...Mas diga: foi o Marula que te mandou? Como ele está?

__ Bem, muito bem. Mas o senhor sabe como é, ele ainda não pode vir, mas pediu que eu o avisasse que está tudo bem e logo ele estará aqui.

__ Ah...esse Getúlio é um ditador! Mas o Lot vem aí e JK é um homem de visão! O problema é que o Jango acredita nos militares...eu estou muito cansado, sabe?

__ Claro__eu disse__ levantando-me da cadeira e segurando o velho. Vou coloca-lo na cama, seu Jorge.

Coloquei-o na cama e o cobri com a colcha.

__ Descanse, seu Jorge. Está tudo bem.

__ Fique atento que o Marula pode chegar. Se chegar, me chame.

O velho virou-se de lado e dormiu. Ao sair do seu quarto, quase tropecei em sua comadre e seu penico cheio de mijo, que esvaziei na privada. Fechei a porta do quarto e fui direto ao telefone. Precisava falar com Belfort. Ao tirar o fone do gancho , descobri que o telefone não funcionava.

Não praguejei, não senti raiva, não nada. Olhei as fotos na parede, sorri em meu pensamento e saí levando no coração uma tristeza conformada que jamais saberei explicar.