Edição 13

Instantâneo

Bárbara Lia

Ele ouve Bach.
Eu calculo distâncias.
Ele nu na cena cinza-azulada.
Eu penso – quatro andares? – morro; não morro.
Ele entreabre a cortina e a lua goza só de roçar sua pele.
Eu penso que a fuligem do fogão vai empoar a dramaticidade.
Ele sorri e insulta os deuses com sua luz plena.
Eu abro a gaveta e procuro a gilete.
Em segredo, ele sorri. Pisa-me, mas sorri quando me recorda.
Eu penso que devo comprar outro fogão, plasmando morte sem
sangue.
A lua estica os olhos turvos para espiá-lo além da cortina.
Eu penso em flagelos – rasgar a pele com arame farpado – dar-lhe
razão para o asco - Miss Frankstein!
Ele entra no banho e ilumina a noite.
Esqueço as tramas fatais e decido por – la petite-mort – nos braços
dele não voltaria do orgasmo.
Ele, Adônis, tangendo o sexo ensaboado como uma flauta entre
espumas.
Eu, úmida erguendo trincheiras de arames farpados, pronta para a
guerra final, afinal.
A água murmura indecências no lóbulo lindo onde um dia
sussurrei minúcias.
Eu vejo meu rosto cerzido carmim pontilhado, rasgado, em uma
alegoria escarlate.
A toalha abraça a pele de lírio em arrepios têxteis.
Evoco a pele lírio e abro a caixa de Pandora, agarro a esperança,
pássaro que baila entre meus dedos.
Ele sorri para a lua e acende o cigarro.
Eu recupero o passado contemplando este gesto.
Estamos de novo, lado-a-lado.
Instantaneamente.
(NOIR – ed. independente, 2.006)