O monstro da estreia
falo sobre mim. Não tenho muito interesse pelos outros. Então, na verdade, permaneço a maior parte do tempo calada. Cultivo certo fascínio pelo silêncio. Sua crueldade me enternece. Sou um pouco como ele porque sou invisível. Mas vejo tudo. É isso que faço.
É nisso que sou boa. Observo. Foi o que me fez assim: As coisas que vi. Cultivo certo fascínio pelo abismo. Seu quase insondável fundo se perde na minha retina. Mas certas imagens nunca se desmancham. Simplesmente seguem com você. Não fazem concessões ou qualquer tipo de negociação.
O que fazem é fiel companhia. Não cultivo mais seus cortes de estimação pelo corpo, nem temperos na horta. Agora cultuo o concreto. Passo os dias aqui. Olhando pro cinza, bebendo cerveja e passando alvejante nas paredes. Mas algumas cores não desbotam.
O vermelho do ladrilho da cozinha e o gosto forte da cera que eu passava pra dar brilho. O laranja da flanela que você tirava do bolso ao final de suas refeições, pra eu lustrar seus sapatos e reparar qualquer estrago que nossos rasteiros movimentos tivessem feito ao chão.
O amarelo do berço que embalava o choro de nunca mais. Cores fortes, cores quentes. Anestesiadas em mim. Só sinto o frio dos azulejos azuis.