Edição 13

Baladeta à maledeta

Fabiano Calixto

Para Marília Garcia

não havia mais ninguém naquela longínqua

noite londrina (cabriolés e morcegos em só silêncio. as

árvores do inverno balbuciavam berceuses

e imagino que haviam esquilos em

algumas delas), era, pois, 1854.

sha-la-la

Bonzo vai a Pittsburg, mas não encontra

nada de estranho na ausência de

Nancy. Neblina, neblina, neblina – densas, gélidas.

não era mais 1854, nem eram

carruagens, mas sim automóveis. o ano: 1976 ou 1977.

nem eram mais talheres de prata,

mas, uma carta escrita com caneta azul,

com um grande N no verso,

na parte inferior direita.

uma fita Basf, corroída, sobre

uma caixa de sapatos velha (onde se via, também,

duas fotografias de uma menina

com suéter vermelho com um Mickey Mouse

de pelúcia atracado ao peito, num dia de sol

talvez nos Alpes suíços). na fita, apenas ruídos –

como de quem tivesse acabado

de ser derrotado por aquela

agonia de não poder nem perceber

o quão importante é

tomar café com solidão.

de lavar a louça por lavar.

– desespero,

apenas. ruídos

de sem dizer nada. ruídos.

sha-la-la

mas a polícia já estava no local, a fome

de alguém havia sido devastada

por uma caixa vazia de pizza,

a lâmina ruiva, a garrafa de leite

pela metade

a cama, um mar de sangue e silêncio –

só um bebê no local onde

a perícia coletava os átomos que balançavam no ar.

– quando pôde ler as palavras de

despedida de Nancy, que

agora estava em algum lugar em Kiev ou La Paz.

ou no sul da França. e aquele eu te amo, mas...

foi demais para o pobre Sid – que

(que?) talvez (talvez?) agora (agora?)

mixava os próprios urros em outra música

em outro cubo de aflição

enquanto, longe, os olhos de Nancy mentiam e

mediam

o Sena.