Edição 13

Por trás de um disfarce

Samantha Abreu

matou os três. Chegou de saco cheio, depois de ter batido o carro numa lixeira, sujado o pára-lama e ralado a pintura da porta. Sentiu vontade de atropelar todos que via pelas ruas, mas envergonhou-se de chamar tanta atenção publicamente. Ah, mas eles não escapavam!

Já tinha agüentado demais. Eram inúmeras contas para pagar, compras no supermercado e comida para fazer. Matou todos com uma dose exageradamente generosa do seu veneno favorito, que já não lhe dava mais o mesmo prazer quando era usado em ratos. Matou-os e saiu com passos leves, para espairecer na varanda.

Na rua, alguns cachorros reviravam latas de lixo e, por um momento, até pensou em lhes dar aquelas carnes frescas, cujo sangue ainda estava quente. Sentou-se na cadeira de balanço e pensou que, finalmente, amanhã poderia voltar para casa somente após o happy hour e não teria que arrumar mais a bagunça de brinquedos espalhados pela casa.

Talvez, amanhã, fosse ao shopping e conseguisse parcelar aquele vestido.