Edição 14

Dançando sozinho

Alessandro Bartel

aquela garota que morava sozinha no fim da rua. E ela vivia sempre sozinha. As pessoas diziam que ela era amante de um cara importante e por isso não se permitia ao convívio social. Uma vez passei por lá e a encontrei dançando enquanto segurava uma vassoura com a qual varria a calçada.

Ela dançava e mexia os lábios com se tivesse acompanhando a música que ela e nem eu entendia. Mas me encantou! A forma como ela se mexia meu chamou a atenção. Me apaixonei pela garota que morava sozinha. Outras vezes eu a vi sentada numa rede fumando e encarando um ponto qualquer no céu.

Sempre havia música. Sempre um som. Tinha impressão que às vezes ela me via. Repentinamente, da mesma forma como havia chegado, a garota que morava sozinha sumiu. Passava e não a via. Não havia som. Só a rede que dançava sozinha ao som do vento. As folhas foram se acumulando na calçada.

Depois de um tempo fiquei sabendo que a levaram embora. Não era amante de ninguém a garota que morava sozinha. Agora, diziam que ela não falava e nem escutava. De amante passou a ser louca. Algumas vezes ainda parava na frente da casa no fim da rua. A rede sozinha.

As folhas. O vento. Às vezes eu ainda a imaginava dançando ao som que ela não ouvia. Ela dançava no silêncio. Um dia tiraram a rede. Tiraram as folhas. Pintaram a casa. Nunca mais passei lá. Hoje, danço pela sala sozinho. Sem som. Sem ninguém. Sinto saudades da garota que um dia me ensinou a amar o silêncio.