Edição 14

O anjo

Natanael de Alencar
Fecho
Natanael de Alencar O galo arrebenta, seu cantar sucesso costumeiro na favela do Macaco.
No leito, dorme, nua, feliz, quase de ventre rompido, a mulher do Banda.
Os bicos de seus seios vermelhíssimos. Sua irmã não tinha bico. O sobrinho mordia, devorador, e sua mana chorava, escandalosamente.
A irmã acreditava que em outra existência fora uma escrava que teve os peitos dilacerados pela maldade do senhor.
Enquanto ela dorme, o ex-bandido Tântalo da Banda Sísifo prepara-se pra descer o morro.
Olha a esposa e tem a vontade de dar uma foda. Fosse mais cedo, bateria uma, só contemplando as curvas dela.
Ontem, fôra o último dia, há muito adiado. Iria se redimir.
Apenas o medo de que antigos vícios e mortes cobrassem o justo pedágio. Mas seu filho a tudo compensava. Garantia ao pai, mesmo preso no ventre da mãe?
Mesmo de divisas banhadas em sangue, resolve sair pra procurar emprego.
Iria conseguir. Descia o morro, leve, de pensar no filho e na mulher. A impressão de deixar os pecados enquanto seguia rumo....Ah, sim. O jornal. Esquecera o jornal. Volta correndo e encontra o jornal sujo de café em cima da mesa de mármore.
Com o jornal à frente dos olhos, vai decifrando, marcando com a íris os classificados.
Qual emprego lhe serviria? Era forte como um touro. Serviria qualquer arte em que pudesse usar os braços ou os dedos marcados de gatilho.
Mentalmente, repassava: pacoteiro, carregador, lixeiro, bagrinho?
Posicionava os ombros, enquanto descia, encaixando-os com orgulho e vaidade. Herdara a constituição física do pai que, embora grande, era pequeno aos seus olhos, pois, bebia muito. Bebia e surrava a família, começando pela mãe. Um dia, em que sacara, desnorteado, uma faca, um tiro paralisou-lhe as intenções. O filho cansara de ver a família sofrer.
Cai uma folha de jornal. Ele não pega. É a página de artes.
Fixa mais os olhos, início de hipermetropia. “Rua Mal. R......, número....É uma porra mesmo. Mancha de café. Caralho!”
Acabou a descida. Agora, tudo horizontal esperança. Pra onde ir, mesmo?
Algo se prepara pra lhe responder. De cada lado, um estranho perfume. Silêncio de calcinhas no varal.
Tarde para a emenda ao soneto. Dois furos no jornal e na carne enfrentam o vento em desclassificada ironia. Bang!!!Tuiiimmmmm!!!!
De madrugada, o jornal daria uma pequena notícia, devido à importância maior do incêndio na cidade cenográfica da Globo