Edição 15

Outro tempo

Daniel Cavana

Pensamentos que giram em alta velocidade. Pulam de um para outro sem terminar em ponto. Chamuscam meus neurônios flácidos. Todas as idéias que parecem geniais e são frágeis. Acabam perdidas ao vento como as palavras não escritas, como os versos não ditos de uma poesia esquecida. Poros abertos para o nada. Como os sonhos que se chocam misturando-se a um só. A lâmina abstrata da razão partindo tudo em giros vertiginosos

A seta traçando um caminho. Colhendo sentimentos em frangalhos. Rasgando o ar gélido entre a névoa da humanidade. Passando incólume entre os corpos. As filosofias perdidas. Os cinco cavalos puxam a carruagem em corrida desenfreada. Note sem fim. O arqueiro prepara outra seta enquanto o condutor anuncia outro tempo.

Tudo isso por trás de meus olhos cansados. Enquanto ouço conversas concordantes. Palavras decentes e idéias sem importância. Um ego perdido nas Hespérides. Vagando entre ondas impossíveis. Passos em Tróia que ainda ecoam. Gigantes diminutos ante a ira dos deuses. O sangue na areia. Nos ares o odor das lutas de uma batalha. Os gritos, o sangue jorrando. Partem-se tendões, ossos e músculos.

A boca seca até rachar os lábios. Sangue do guerreiro. A demência dos poemas de guerra. Insanidade regada a epinefrina. Dilatação do tempo e abertura de portas. A percepção do real mito rápida. Um vacilo e a morte. O movimento no giro do sagrado Martelo. Destruindo tudo a sua volta para reconstruir em algum lugar da memória uma história épica. A roda do tempo gira inexoravelmente em todas as direções.