Edição 15

A caverna dos suspiros

Júlio Carrara

Drama
Lenda indígena
Texto de:
JULIO CARRARA
Baseado no folclore brasileiro
Escrita em 1998
PERSONAGENS:
VOVÔ
LUCINHA
JUNINHO
GODOFREDO
VELHA DAS CAVERNAS
CACIQUE PERI
ÍNDIO UIRÁ
SEIS ÍNDIOS
PERSONAGENS DA LENDA NARRADA POR VOVÔ:
PIRATA KID
ÍNDIA EULÁLIA
DRAGÃO
QUATRO PIRATAS
TRÊS ÍNDIOS
OBS.:
Se o diretor utilizar a linguagem do áudio-visual para a lenda narrada
por Vovô, as personagens poderão ser interpretadas pelos mesmos atores,
na seguinte distribuição:
VOVÔ - PIRATA KID
VELHA DAS CAVERNAS - EULÁLIA
LUCINHA, JUNINHO, GODOFREDO E UIRÁ - OS QUATRO PIRATAS
ÉPOCA: Atual, no plano da realidade; Indefinida no plano da imaginação.
CENÁRIO:
O exterior de uma caverna com a entrada da gruta na parte superior
central. Essa entrada é bem larga. Uma grade fecha toda a entrada da
caverna. Essa grade só aparece no momento da prisão de Eulália, se a
cena for realizada como espetáculo teatral; (se o diretor utilizar o
recurso do áudio-visual, deverá descer do urdimento um ciclorama para
serem projetadas as imagens da história de Eulália, não usando as
grades neste momento) e da prisão de Godofredo. Duas enormes árvores,
uma em cada extremo do proscênio.
CENA 1
(UM
POUCO ANTES DO TERCEIRO SINAL, OUVE-SE NO ÁUDIO RUÍDOS DE MATA: GRILOS,
CIGARRAS, COAXAR DE SAPOS, CANTO DE PÁSSAROS E O BARULHO DE UMA
CACHOEIRA AO LONGE. DURANTE TODO O TRANSCORRER DO ESPETÁCULO OUVE-SE
GOTEIRAS COMPASSADAS FAZENDO ECO DENTRO DA CAVERNA. BLACK-OUT. OS
RUÍDOS AUMENTAM E CONTINUAM NO ESCURO. LUZ SOBE EM RESISTÊNCIA COM O
PALCO NA PENUMBRA ABSOLUTA. UM VELHO E DUAS CRIANÇAS ENTRAM PELA
PLATÉIA. PELA RESPIRAÇÃO PARECE QUE CAMINHARAM MUITO. CADA UM TRAZ NAS
COSTAS UMA MOCHILA. TRAJAM CHAPÉUS E ROUPAS DE EXPLORADOR. AS ÚNICAS
LUZES QUE ILUMINAM A CENA SÃO AS DOS FAROLETES QUE MOVEM EM TODAS AS
DIREÇÕES POSSÍVEIS. QUANDO OS TRÊS SOBEM NO PALCO, A LUZ AUMENTA DE
INTENSIDADE E O SOM VAI CESSANDO. LUCINHA, MUITO CANSADA, DESABA NO
CHÃO).
LUCINHA (ESBAFORIDA) Não estou agüentando mais andar, vô.
VOVÔ
- Viu porque eu não queria que vocês viessem comigo? Eu fui bem claro
antes de sairmos do sítio que essa expedição não seria moleza.
JUNINHO - Mas andamos mais de três horas sem parar, vô. Precisamos descansar um pouco.
VOVÔ - (CEDE) Ok. Vocês venceram. Vamos descansar...
(SENTAM-SE
JUNINHO E VOVÔ AO LADO DE LUCINHA. TODOS TIRAM AS MOCHILAS DAS COSTAS.
VOVÔ TIRA DA SUA MOCHILA UMA GARRAFA TÉRMICA E UMA XÍCARA. DESPEJA O
CAFÉ NA XÍCARA, RISCA UM FÓSFORO E MEGULHA-O ACESO NO CAFÉ. FICA
OLHANDO O LÍQUIDO TENTANDO DECIFRAR ALGUMA COISA).
LUCINHA - (CURIOSA) O que o senhor está fazendo, vô?
VOVÔ - Tirando a sorte!
JUNINHO - Sorte? Como assim?
VOVÔ
- Fazendo isso surgem várias figuras no café. Olhem. (MOSTRA A XÍCARA
PARA OS MENINOS) A gente pode adivinhar a sorte pelas figuras... Formou
um avião. Isso quer dizer que eu vou andar de avião. Basta saber
interpretar.
(JUNINHO PEGA OUTRA XÍCARA E REPETE O GESTO DO AVÔ. FICA OLHANDO CURIOSO PARA A FIGURA QUE FORMOU)
JUNINHO - E isso que apareceu na minha xícara, o que é?
VOVÔ - (ANALISANDO) Deixa eu ver. Hum... parece, parece... um dragão. Isso quer dizer que você vai ver um dragão!
JUNINHO - (GAGUEJA) Um dra-dra-dragão? (APAVORADO) Eu quero ir embora. (TENTA SAIR CORRENDO, MAS O VELHO O SEGURA COM FIRMEZA)
VOVÔ
- Nem pensar. Quiseram vir comigo, agora agüentem as conseqüências. O
único mal é que os dragões sempre moram em cavernas. E é possível que
algum deles ainda more aqui... e só vamos embora daqui depois que
pusermos as mãos na arca do tesouro e entregarmos todo o ouro existente
nela ao Cacique Peri, o tataraneto da índia Eulália.
LUCINHA - E se a gente não conseguir encontrar a arca?
VOVÔ
- (TIRA UM MAPA DO BOLSO DA CAMISA) Claro que vamos encontrar. O mapa
está claríssimo. O tesouro está enterrado aqui nessa caverna.
JUNINHO - Alguém já pode ter encontrado e levado embora...
VOVÔ - Acho pouco provável.
LUCINHA - E como o senhor pode ter tanta certeza?
VOVÔ
- Eu sei, sinto... Essa caverna foi pouquíssimo explorada... Agora
vamos descansar um pouco pra recuperar as energias e depois
continuaremos nossa busca. (VOVÔ ESCONDE O MAPA EM UMA DAS BOTAS)
JUNINHO - (MEIO ASSUSTADO) E se o dragão aparecer por aqui?
VOVÔ - Fica quieto! Pára de bancar o bobo. Vamos dormir agora...
(OS TRÊS SE JUNTAM E ADORMECEM)
CENA 2
(ENTRAM DOIS ÍNDIOS PELA PLATÉIA. UM DELES É O BANDIDO GODOFREDO. ESTE ARRASTA O OUTRO, QUE IMPACA A TODA HORA).
GODOFREDO
- Anda logo, seu índio idiota. Se você me ajudar encontrar aquele velho
imbecil e seus netos insuportáveis, eu roubo o mapa, pego o tesouro e
vocês comem a carne deles. (GESTICULA MUITO PARA FAZÊ-LO ENTENDER)
(UIRÁ FAZ GESTO DE QUEM NÃO ENTENDEU)
GODOFREDO - Você não entende nada, índio cretino.
UIRÁ - (PENSA QUE FOI ELOGIADO) Uirá índio cretino! (RI)
GODOFREDO - (IMPACIENTE) Onde eu fui amarrar meu bode! Ainda por cima esse palerma que não entende nada.
UIRÁ - Uirá palerma! (RI)
GODOFREDO
- Droga! (CAMINHA ATÉ O PALCO E ENCONTRA OS TRÊS DORMINDO) Mas quem é
que eu vejo? Finalmente encontrei quem procurava. Venha comigo. O mapa
está com esse velho. Vamos agir antes que eles acordem.
(AMBOS
APROXIMAM-SE DO VELHO COM O OBJETIVO DE ROUBAR O MAPA. SEM QUE ELES
PERCEBAM, ENTRA EM CENA UMA VELHA DAS CAVERNAS, TODA DESCABELADA E
ESFARRAPADA COM UM PORRETE NAS MÃOS. A VELHA BATE COM O PORRETE NA
CABEÇA DE AMBOS, QUE SEGURAM O GRITO DE DOR E SAEM CORRENDO. DEPOIS DE
UM TEMPO, OUVEM-SE OS GRITOS DELES AO LONGE. A VELHA FICA SENTADA, DE
VIGIA, OBSERVANDO-OS. JUNINHO ACORDA COM OS GRITOS E SE ASSUSTA AO VER
A VELHA, QUE SORRI PARA ELE, MOSTRANDO OS DENTES PODRES)
JUNINHO - Credo! (COM UM NÓ NA GARGANTA) Socorro!
LUCINHA
- (ACORDANDO) O que foi, Juninho? (QUANDO VÊ A VELHA, TAMBÉM SE ASSUSTA
E FICA GRUDADA COM O IRMÃO. AMBOS TREMEM DE MEDO)
VOVÔ - (TAMBÉM ACORDA) O que foi isso?
(PROCURA
SEUS ÓCULOS E DEPOIS DE COLOCÁ-LOS, ENXERGA NITIDAMENTE A FIGURA DA
VELHA. TAMBÉM SE ASSUSTA, DANDO UM GRITO ABAFADO. A VELHA OLHA PARA
ELES E FAZ UM BEICINHO DE CHORO. COMEÇA A CHORAR ALTO. VOVÔ SE APROXIMA
DELA E ESTA SE MOSTRA BEM DÓCIL, COLOCANDO A CABEÇA NO OMBRO DELE).
VOVÔ - (COMPREENDE TUDO) Não precisam se assustar, crianças. É só uma mulher das cavernas...
VELHA - (FALA EM “CAVERNÊS”) Oia uyts notivestes...
LUCINHA - (SEM ENTENDER) O que ela disse, Juninho?
JUNINHO - (IMITA A VELHA) Oia uyts notivestes...
LUCINHA - Ah, muito engraçado, irmãozinho. (PARA O AVÔ) Entendeu alguma coisa, vô?
VOVÔ-
Não. (PRESTA ATENÇÃO NA VELHA, QUE FAZ GESTOS DESESPERADOS TENTANDO
DIZER QUE DOIS HOMENS VESTIDOS DE ÍNDIO ESTIVERAM LÁ. VOVÔ VAI
DECIFRANDO) Homem... vestido de índio? (A VELHA DIZ QUE SÃO DOIS) Dois
homens? (FICA APAVORADO) Meu Deus!!!
LUCINHA - Por que o medo, vô? O senhor não diz sempre que é forte e corajoso?
VOVÔ - Forte e corajoso eu sou, mas a questão não é essa quando se trata de canibais.
OS DOIS - (ESPANTADÍSSIMOS) Canibais????????
VOVÔ
- Sim, canibais. (PENSA) Como não pensei nisso antes? Estamos numa
região infestada de índios canibais. (TIRA O MAPA DA BOTA E MOSTRA-PARA
SEUS NETOS) Aqui neste pontinho vermelho fica a tribo dos índios
antropófagos. E neste ponto preto fica a tribo do Cacique Peri. No
passado, todos eles foram muito maltratados e explorados pelos homens
brancos e quando se enfurecem devoram carne humana. Os primeiros
continuam antropófagos, mas a tribo do Cacique Peri deixou de ser. Mas
se se enfurecerem, voltam a ser o que eram antes, ou seja, canibais...
E se nós não conseguirmos encontrar a arca ou falar a mesma língua a
respeito do que nos trouxe para cá, vamos todos virar picadinho. (AS
CRIANÇAS ENGOLEM EM SECO) Precisamos agir bem rápido.
(A VELHA FAZ GESTOS DIZENDO QUE EXPULSOU OS DOIS A PORRETADAS E QUE VAI PROTEGÊ-LOS)
VOVÔ - Ela disse que expulsou os índios daqui e que vai nos proteger. (GESTO AFIRMATIVO DELA)
LUCINHA - Mas vô, por que o senhor veio atrás desse tesouro mesmo sabendo dos perigos que correria?
VOVÔ - É uma longa história, Lucinha!
JUNINHO - Conte pra gente, então...
(A
CENA A SEGUIR TRANSCORRE NO PLANO DA IMAGINAÇÃO DOS RECEPTORES. DEVERÁ
EXISTIR UMA LUZ ESPECIAL PARA ESSE PLANO: UMA LUZ DE SONHO. AOS POUCOS,
A LUZ QUE ILUMINA O QUARTETO DESCE EM RESISTÊNCIA E ELES PERMANECEM
IMÓVEIS NA PENUMBRA. A PARTIR DAÍ, O TEXTO DE VOVÔ ENTRA EM OFF. À
MEDIDA QUE VOVÔ CONTA A HISTÓRIA, AS PERSONAGENS VÃO APARECENDO E
ENCENANDO - ISSO SE O DIRETOR UTILIZAR A LINGUAGEM TEATRAL. SE O
DIRETOR UTILIZAR A LINGUAGEM DO ÁUDIO-VISUAL, AS CENAS DEVERÃO SER
PRÉ-GRAVADAS. E PROJETADAS NUM CICLORAMA QUE DESCE DO URDIMENTO. SE FOR
OPTAR POR ESSE RECURSO, O TEXTO E AS AÇÕES DEVERÃO SOFRER ALGUMAS
ALTERAÇÕES, POIS AS IMAGENS FALARÃO POR SI.).
VOVÔ - (OFF) Segundo
minhas pesquisas, isso aconteceu na época em que os piratas infestavam
os mares. Como vocês sabem os piratas eram loucos por tesouros. Acho
que não pensavam em outra coisa. Bastava que descobrissem algum valor e
pronto. Já iam atrás. Um dos piratas chamado Kid, navegava em pleno
mar... (O PIRATA KID E MAIS QUATRO MARINHEIROS ENTRAM EM CENA DENTRO DE
UM BARCO)...quando viu que estava sendo perseguido por navios de
guerra. (OS MARINHEIROS FICAM AGITADOS) Tratou de fugir. Sabendo que
acabaria por ser capturado, pois os perseguidores eram muito mais
velozes do que ele pensou num modo de esconder o que lhe era mais caro:
o tesouro que levava em seu barco. Os navios perseguidores se
encontravam mais perto. (UM DOS MARINHEIROS OLHA POR UM BINÓCULO OU
LUNETA E VÊ OS NAVIOS DE GUERRA. INTERAGE COM OS OUTROS A RESPEITO DO
FATO) Os piratas, vendo que a abordagem seria inevitável, empunharam as
armas e esperaram. (OS PIRATAS APONTAM AS ARMAS PARA FORA DE CENA) Os
perseguidores, porém, não estavam dispostos a lutar com os piratas e
resolveram afundar o barco de Kid. O barco foi afundado e os piratas
abandonados à sua sorte. (OS PIRATAS RODOPIAM VÁRIAS VEZES COM O BARCO
PELO PALCO PASSANDO A IDÉIA DE UM BARCO AFUNDANDO. AO MESMO TEMPO, O
MAR FICA AGITADO EM VIRTUDE DA TEMPESTADE. GRITARIAS E HISTERIA
COLETIVA. OS RAIOS CORTAM O CÉU. COMEÇA A CHOVER FORTEMENTE. OS PIRATAS
PULAM NO BARCO ENQUANTO ELE AFUNDA. O PIRATA KID NÃO ESTÁ COM ELES. OS
QUATRO PIRATAS LUTAM CONTRA A FÚRIA DAS ÁGUAS E SE AFOGAM. MORREM NO
CENTRO DO PALCO E ROLAM PARA OS BASTIDORES) Morreram todos
afogados, menos Kid, que ferido, conseguiu se arrastar até a ilha mais
próxima, carregando nos braços todo o seu tesouro. (O PIRATA KID
APARECE RASTEJANDO, TODO ENSANGUENTADO CARREGANDO A ARCA CONSIGO) Como
os perseguidores não tinham visto o pirata com a arca, tomaram o rumo
de volta. Quando Kid estava próximo da Caverna do Dragão, apareceu o
grande monstro que ficou cara-a-cara com ele.
(UM DRAGÃO APARECE
VINDO DO FUNDO DO PALCO. TEM O TAMANHO DE TRÊS CAVALOS DE COMPRIMENTO E
É MAIS ALTO QUE UM ELEFANTE. SEU CORPO É CHEIO DE ESCAMAS E TODO VERDE.
O RABO MUITO COMPRIDO QUE TERMINA EM SETA, AS PATAS GUARNECIDAS POR
PODEROSAS GARRAS. OS OLHOS SÃO VERMELHOS COMO BRASAS. TEM OS DENTES
ENORMES E UMA LÍNGUA MUITO COMPRIDA. KID OLHA PARA O MONSTRO, QUE
APARENTEMENTE ESTÁ CALMO)
PIRATA KID -
(ARQUEJANTE) Se você guardar para sempre este tesouro, poderá se tornar
dono dele... Mas não poderá deixar que ninguém toque nele! (O DRAGÃO
ACENA A CABEÇA AFIRMATIVAMENTE) Lembre-se disso: Se você guardar para
sempre este tesouro poderá se tornar dono dele. Mas não poderá deixar
que ninguém toque nele! (FALA COM DIFICULDADE) Ninguém! Ninguém!
Ninguém!
(MORRE. O DRAGÃO FECHA A ARCA E LEVA-A ATÉ O FUNDO DO
PALCO ESCONDENDO-A. EM SEGUIDA, DESAPARECE. APARECE UM GRUPO DE ÍNDIOS
E AO VEREM O CADÁVER DO PIRATA, PEGAM SEU CORPO E O LEVAM DALI. SE A
CENA ESTIVER SENDO REALIZADA NA LINGUAGEM TEATRAL, A LUZ VOLTA
NOVAMENTE PARA O PLANO DA REALIDADE. NA LINGUAGEM DO ÁUDIO-VISUAL, AS
IMAGENS SERÃO INTERROMPIDAS POR UM MOMENTO. A VELHA, LUCINHA E JUNINHO
OUVEM ATENTOS A HISTÓRIA DE VOVÔ).
VOVÔ - E aí o dragão aceitou a proposta e escondeu o tesouro!
LUCINHA - Mas pra quê um dragão quer um tesouro se ele nem sabe no que gastar?
VOVÔ
- Talvez pelo prazer de se sentir dono de uma coisa tão valiosa. “Que
coisa maravilhosa”, ele deve ter pensado. E era tudo dele!... Poucas
pessoas conseguiram ver esse monstro. As que viram nunca mais chegaram
perto dessa Caverna.
JUNINHO - Eu é que não quero ver esse bicho!
LUCINHA - Nem eu.
VOVÔ - Embora o dragão estivesse aqui há muito tempo, só houve um caso grave... Eulália era a índia mais bonita do lugar...
(VOLTA
NOVAMENTE A LUZ NO PLANO DA IMAGINAÇÃO, NA LINGUAGEM TEATRAL. NA
LINGUAGEM DO ÁUDIO-VISUAL AS IMAGENS VOLTAM A SER PROJETADAS)
(EULÁLIA, UMA BELÍSSIMA ÍNDIA APARECE SEGURANDO UMA FLOR AMARELA, QUE PÕE ATRÁS DA ORELHA DIREITA)
VOVÔ
- (OFF) ...e também a mais descrente quanto à existência do
dragão. Quando alguém se aproximava da Caverna, o dragão punha a
cabeça pra fora e cuspia fogo fazendo a pessoa correr mais depressa que
o pensamento. Quando era Eulália que estava por perto, ele ficava
quietinho, escondido. Como ele não saía para assustar a moça, ela não
conseguia vê-lo e, portanto, não acreditava nele. Assim foi chegando
cada vez mais perto.. (EULÁLIA SE APROXIMA DA GRUTA E FICA DE COSTAS
PARA SUA ENTRADA) Um dia, a índia estando de costas para a gruta, não
viu o dragão que saía de mansinho e vinha em sua direção. O dragão
agarrou-a por trás e aprisionou a índia na Caverna.
(EULÁLIA GRITA
DESESPERADA. O DRAGÃO TRANCA-A NUMA ENORME CELA, FICANDO JUNTO COM ELA.
ABRE A ARCA E TIRA DE LÁ, COLARES DE PÉROLAS, ANÉIS DE OURO, BRINCOS DE
PRATA, PULSEIRAS DE DIAMANTES E COBRE EULÁLIA COM O TESOURO).
VOVÔ -
Nunca mais a pobre saiu de lá e segundo alguns que a viram, não de
muito perto, é claro, ela não envelheceu. Com sessenta anos tinha a
aparência de uma moça de vinte. Com certeza foi algum feitiço que o
dragão fez pra ela. Os que a viram dentro da caverna, dizem que ela
andava coberta de jóias, naturalmente emprestadas pelo dragão.
(O
DRAGÃO FICA OLHANDO PARA ELA, ADMIRANDO SUA BELEZA. A ÍNDIA, MESMO
COBERTA COM TODAS AQUELAS JÓIAS, TEM O OLHAR MELANCÓLICO E SUSPIRA
PROFUNDAMENTE).
(VOLTA LUZ NO PLANO DA REALIDADE; OU AS IMAGENS SÃO CONGELADAS).
LUCINHA - E por quê o nome desta gruta é Caverna dos Suspiros?
VOVÔ
- Porque algumas pessoas que tiveram a coragem de passar mais ou menos
perto da gruta, contaram que a moça prisioneira do dragão costumava
dizer...
(LUZ NO PLANO DA IMAGINAÇÃO; OU A IMAGEM DESCONGELA).
EULÁLIA
- (SEGURA NAS GRADES, SUSPIRANDO) Ah, se eu pudesse ir pra minha tribo!
Se eu pudesse sair daqui... (SUSPIRA MAIS FORTE) Ah, se eu pudesse sair
daqui...
(VOLTA LUZ NO PLANO DA REALIDADE OU A PROJEÇÃO É INTERROMPIDA)
VOVÔ
-...e depois dava uma porção de suspiros. Suspirava que dava pena. O
povo que antes chamava a gruta de Caverna do Dragão, com o tempo passou
a chamá-la de Caverna dos Suspiros... Eulália, não agüentando mais
tanto sofrimento... morreu... e o dragão, desesperado, guardou todas as
jóias, enterrou a arca, não cuspiu mais fogo e simplesmente desapareceu
sem deixar vestígio algum...
(FIM DA HISTÓRIA. VOLTA LUZ NO PLANO DA REALIDADE OU O CICLORAMA SOBE PARA O URDIMENTO).
JUNINHO - Que história triste!
LUCINHA - E por que o senhor quer entregar esse tesouro ao tataraneto de Eulália, vô? Não tem medo que eles nos matem?
VOVÔ
- Claro. Mas precisamos arriscar. Meu único medo é não conseguir
explicar isso tudo para esse Cacique. Se conseguirmos, entregaremos a
arca para ele e aí nós vamos embora, enquanto o Cacique, junto com sua
tribo decidirão o que fazer com o tesouro.
JUNINHO - Tô com sono. Eu queria cochilar um pouco, mas tenho medo que o dragão apareça...
VELHA - Grustrfhgi ababa uie... (DIZ QUE FICARÁ ACORDADA PARA PROTEGÊ-LOS)
VOVÔ - Não se preocupe. Ela disse que vai ficar acordada olhando pela gente.
(DEITAM
OS TRÊS E IMEDIATAMENTE ADORMECEM. A VELHA FICA SENTADA NO CHÃO APOIADA
NO PORRETE. SEUS OLHOS FICAM PESADOS E ELA ESTÁ CADA VEZ MAIS
SONÂMBULA. FECHA OS OLHOS E QUANDO PERCEBE QUE COCHILOU, ACORDA NUM
SOBRESSALTO. POUCO DEPOIS, FECHA NOVAMENTE OS OLHOS, TOMBA DO LADO E
DORME PROFUNDAMENTE).
CENA 3
(ENTRAM PELO FUNDO,
GODOFREDO E UIRÁ. OS DOIS ESTÃO COM A CABEÇA ENFAIXADA DEVIDO A
PORRETADA DA VELHA. A VELHA CONTINUA DORMINDO E RONCA MUITO ALTO)
GODOFREDO
- (COCHICHA PARA UIRÁ) Estão todos dormindo... Se a gente não conseguir
roubar o mapa, vamos seqüestrar a menina e pedir o mapa para o velho
como pagamento de seu resgate. Se ele não entregar, a gente mata a
menina.
UIRÁ - Uirá índio bom. Uirá não mata nem mosca! Mim não mata ninguém.
GODOFREDO-
É claro que não vamos matar ninguém, é só para assustar, ô infeliz...
(SONHA) Eu tenho que encontrar esse mapa. Vou ficar riquíssimo e todas
as pessoas desse planeta serão meus escravos... (RISO MACABRO) Ninguém
nunca passou Godofredo Fedorento Lambido Ranhento Babão Sacarrolha
Roberto Francisco da Silva e Souza Pereira para trás, e não vai ser
esse velho que vai passar. (PAUSA) Pelo que parece, o mapa está muito
bem escondido. A solução é seqüestrar a menina.
(AMBOS SE APROXIMAM
DA MENINA, A VELHA ACORDA E TENTA ACERTAR MAIS UMA PORRETADA NA CABEÇA
DELES, MAS NA HORA “H”, GODOFREDO PERCEBE E AGARRA A VELHA, ENQUANTO O
ÍNDIO A PRENDE COM UMA CORDA E LHE COLOCA UMA MORDAÇA).
GODOFREDO -
(SARCÁSTICO) Pensando que ia sair feliz de novo? Se danou, sua ameixa
seca, seu maracujá de gaveta, sua uva passa de panetone. Dessa vez, fui
eu que me dei bem. (A VELHA TENTA FAZER DE TUDO PARA ESCAPAR, MAS NÃO
CONSEGUE) Você vai ficar aí, velha escamosa, bem quietinha. Não adianta
espernear. Quando o velhote acordar, estaremos lá no acampamento do
Cacique Peri com a menina e se ele não me entregar o mapa, adeus
menina!
(FAZ GESTO DE DEGOLAMENTO. VAI ATÉ LUCINHA E JUNTO COM
UIRÁ AMORDAÇAM A MESMA, QUE DESMAIA AO VÊ-LOS. UIRÁ SEGURA A MENINA NOS
BRAÇOS ENQUANTO GODOFREDO ESCREVE UM BILHETE PARA O VOVÔ. DEIXA O PAPEL
PERTO DELE E SAEM COM LUCINHA. A VELHA ESTÁ DESESPERADA. SE ESPERNEIA
BASTANTE E FAZ RUÍDOS ALTOS. JUNINHO ACORDA E PERCEBE IMEDIATAMENTE QUE
LUCINHA NÃO ESTÁ LÁ E AO VER A VELHA AMARRADA, FICA DESESPERADO)
JUNINHO
- Os índios antropófagos levaram a Lucinha. (SACODE O AVÔ) Vô, vô,
acorde! A Lucinha sumiu. Acorde, vô. (VOVÔ ACORDA) Levaram a Lucinha!
VOVÔ - (ASSUSTADO) Quem?
JUNINHO - Sei lá, acho que foram os índios... Olhe, amarraram a Velha...
(VOVÔ VAI ATÉ A VELHA E LIBERTA-A. ELA FAZ GESTOS DESESPERADOS)
VELHA - Bilinguinstra ababa dertghiopljk mitnarotovra... (TENTA DIZER QUE DOIS ÍNDIOS ESTIVERAM LÁ E LEVARAM A MENINA)
VOVÔ - Índio? (ELA FAZ “DOIS” COM OS DEDOS) Dois índios? ... São os canibais...
JUNINHO - (ENCONTRA O BILHETE) Olha, deixaram um bilhete.
VOVÔ
- Meus óculos! (REMEXE NA MOCHILA E POR FIM OS ENCONTRA. SUAS MÃOS
ESTÃO TRÊMULAS. PEGA O BILHETE DAS MÃOS DE JUNINHO E LÊ) “Velho
Esclerosado...” (VOVÔ FICA PERPLEXO) O que é isso?
JUNINHO - Estão te chamando de “esclerosado”...
VOVÔ - (PASMO E OFENDIDO) Que desrespeito!
JUNINHO - (ANSIOSO) Continue...
VOVÔ
- (LÊ) “Velho esclerosado. Ou você traz o mapa no acampamento do
Cacique Peri hoje às onze horas ou teremos no almoço picadinho feito
com a carne da menina. Assinado: Uirá, filho do Cacique Peri”.
VOVÔ
- (TIRA DA BOTA O MAPA E COM ELE NA MÃO ANDA DE UM LADO PARA OUTRO) Que
situação! O que fazer? Os índios estão enfurecidos de novo e são
capazes de causar uma desgraça.
JUNINHO - Lucinha ou o mapa...
VOVÔ - Eu preciso cumprir minha missão. Eu não vim aqui à toa. Esse mapa é muito importante pra mim.
JUNINHO - Mas a Lucinha é muito mais importante.
VOVÔ - Você tem razão. Vamos entregar o mapa para os índios e pegar a Lucinha de volta.
JUNINHO - Eu tive uma idéia genial.
VOVÔ - Qual?
JUNINHO
- Vamos até o acampamento disfarçados de índios pra tentar encontrar a
Lucinha. Quando a gente encontrar, vamos seqüestra-la de volta e sair
correndo sem entregar o mapa... O que acha da idéia?
VOVÔ -
Não sei. Isso pode ser uma cilada, uma armadilha pra gente... O melhor
a fazer é ir ao encontro deles, entregar o mapa, pegar Lucinha de
volta, voltar pro sítio e esquecer definitivamente dos objetivos que
nos trouxeram pra cá. Venham comigo...
(SAEM VOVÔ, VELHA E JUNINHO)
CENA 4
(DO LADO OPOSTO APARECEM UIRÁ E GODOFREDO, QUE TRAZ LUCINHA, AINDA AMORDAÇADA)
GODOFREDO
- Vamos parar aqui. Agora vou convencer o Cacique de que o velho
e seus netos são pessoas perigosíssimas e que querem incendiar a tribo
dele. Fica aí, índio infeliz, tomando conta da menina.
UIRÁ - (RINDO) Índio infeliz toma conta menina!
GODOFREDO - (SAI, IMITANDO UM ÍNDIO) Uuuuuuuuuuuuu...
(LUCINHA
ESTÁ APAVORADA. O ÍNDIO VAI CHEGANDO PERTO DELA E RI. SEGURA A MÃO DA
MENINA E COLOCA-A PRÓXIMO DE SUA BOCA. LUCINHA RESMUNGA E PUXA A MÃO)
UIRÁ
- Uirá não come agora. Uirá brincando, hi!hi!hi!... Cacique Peri, índio
Uirá e tribo toda põe menina meio roda e faz assim ó... (FAZ UMA
COREOGRAFIA INDÍGENA. LUCINHA DESMAIA. UIRÁ SE ASSUSTA) Que cagada!
Uirá mocorongo esconder menina...
(SAI COM LUCINHA NOS BRAÇOS)
CENA 5
(ENTRAM GODOFREDO E CACIQUE PERI)
GODOFREDO
- (NO MEIO DE UMA CONVERSA) Esse velho é perigosíssimo. Vieram de um
sítio da Conchinchina para destruir vocês. Raptaram o índio Uirá e o
senhor vai ser queimado.
CACIQUE PERI - Cacique queimado, nunca! Cacique reunir tribo, prender homem branco fazer picadinho.
GODOFREDO - Espere mais um pouco. Preciso do velho vivo para que eu possa conversar com ele com calma.
CACIQUE PERI - Mim queimado, nunca! Mim queimado, nunca! Cacique buscar tribo prender homem branco! Vou já, já...
(VAI SAINDO. ENTRAM A VELHA, VOVÔ E JUNINHO).
GODOFREDO - Olha o velho, o neto dele e a velha escamosa, Cacique!
CACIQUE
- (CHAMA OUTROS ÍNDIOS COM UM ASSOBIO. TODOS APARECEM CORRENDO) Prendam
esses querem queimar Cacique destruir tribo toda!
(OS ÍNDIOS FECHAM
OS TRÊS NUM CÍRCULO E FAZEM UMA COREOGRAFIA EM TORNO DELES. COM UMA
CORDA BEM GRANDE, AMARRAM OS TRÊS, QUE FICAM UM DE COSTAS PARA O OUTRO.
ESTÃO EM PÂNICO. OS ÍNDIOS EXCETO O CACIQUE PERI SAEM PARA A MATA).
JUNINHO - Não temos mais saída. Vamos todos virar picadinho. (CHORA)
CACIQUE PERI - (PARA OS TRÊS) Onde tá filho Uirá, velho ruim?
VOVÔ
- Eu nem sei quem é seu filho, seu Cacique. Viemos aqui para cumprir
uma missão importantíssima... E se trata de uma missão de paz...
CACIQUE
PERI - Velho mente. Cacique não acredita gente branca. Gente branca
tudo mentirosa. Gente branca raça ruim. Cacique e tribo deixou ser
canibal depois dragão prendeu índia Eulália, tataravó Cacique, mas
quando aparece gente branca ruim, come tudo sem dó. Cacique reunir
tribo comer gente branca. Vou procurar tempero mato. (SAI)
GODOFREDO - (PARA O VELHO) Se me entregar o mapa, eu solto vocês.
VOVÔ - E como posso ter certeza disso?
GODOFREDO - Eu não minto jamais.
VOVÔ - E minha neta Lucinha?
GODOFREDO - Ela está bem. O índio Uirá está cuidando dela.
VOVÔ - (FALA COM SEUS BOTÕES) Minha neta já virou picadinho... Que horror!
CACIQUE PERI - (ENTRANDO COM O TEMPERO) Cacique vai comer três já, já!
GODOFREDO - Espere um pouco, seu Cacique.
CACIQUE PERI - Cacique e tribo come tudo agora!
(OS
ÍNDIOS TRAZEM UM ENORME CALDEIRÃO E PÕEM OS TRÊS DENTRO DELE. DEPOIS
PEGAM UMA CUIA ENORME E COMEÇAM A ENCHER O CALDEIRÃO DE ÁGUA. OUTROS
ÍNDIOS TRAZEM LENHA E COLOCAM EM VOLTA DO CALDEIRÃO. EM SEGUIDA BOTAM
FOGO NA LENHA).
VOVÔ - Cacique Peri, mesmo que a gente vire assado,
fique com esse mapa. (TIRA O MAPA DE UM BOLSO ESCONDIDO DA CAMISA) Esse
é o mapa que leva à arca do tesouro que pertenceu ao pirata Kid. Esse
tesouro está enterrado bem no fundo da Caverna dos Suspiros, exatamente
na cela onde Eulália ficou presa. A gente veio aqui pra isso. Não pra
roubar, matar, queimar, mas para lhe entregar esse mapa.
CACIQUE PERI - Homem branco dizer verdade?
VOVÔ - Sim.
CACIQUE PERI - Homem branco gente boa!
GODOFREDO
- (DESESPERADO) Não, Cacique. O velho é mentiroso. Ele não é bom. Ele
mente porque quer que o senhor tire eles daí para que eles possam
destruir toda a tribo.
VOVÔ - (EMPUNHA O MAPA) Pegue esse mapa, seu Cacique...
(O
CACIQUE VAI PEGAR O MAPA. NESSE MOMENTO, GODOFREDO PEGA O PORRETE DA
VELHA QUE ESTÁ JOGADO NO CHÃO E ACERTA NA CABEÇA DE PERI, QUE DESMAIA
INSTANTÂNEAMENTE. ARRANCA O MAPA DAS MÃOS DO VELHO)
GODOFREDO -
(RINDO) Finalmente consegui o que tanto queria. Eu me amo! (BEIJA SUAS
MÃOS, BRAÇOS ETC) O que seria de mim sem mim! Como é bom ser mau...
(SAI RINDO)
VOVÔ - (GRITANDO) Ladrão! Ordinário!
JUNINHO - (IDEM AO AVÔ) Safado! Sem-vergonha!
VELHA - (IDEM AOS DOIS) Junglingue! Oiomeie!
(CACIQUE
PERI SE LEVANTA. ESTÁ BASTANTE ATORDOADO E COMEÇA A DIZER PALAVRAS
DESCONEXAS. VAI VOLTANDO AO NORMAL. OLHA PARA O ALTO E COMEÇA A CONTAR
ÍNDIOZINHOS, QUE DANÇAM EM TORNO DA SUA CABEÇA, CENAS COMUNS DE DESENHO
ANIMADO. NESSE INSTANTE APARECE O ÍNDIO UIRÁ COM LUCINHA. A MENINA ESTÁ
LIBERTA DAS CORDAS E SEM A MORDAÇA E AMBOS RIEM MUITO).
CACIQUE PERI - (AO VER UIRÁ) Filho Uirá vivo! (CORRE ABRAÇAR O FILHO)
VOVÔ - Lucinha também...
LUCINHA - (CORRE) Vovô, Juninho, Velha!... (ABRAÇA OS TRÊS)
CACIQUE PERI - (PARA UIRÁ) Algum deles maltratou filho Uirá?
UIRÁ
- Não, papai Cacique. O índio Godofredo fez Uirá roubar menina. Mas
menina muito boa. Uirá mocorongo ficou dó dela amarrada e tirei mordaça
e corda prendia ela.
(CACIQUE PERI ORDENA PARA OS ÍNDIOS TIRAREM
VOVÔ, JUNINHO E VELHA DO CALDEIRÃO. NESSE MOMENTO ENTRA GODOFREDO,
CARREGANDO A ARCA, TRIUNFANTE)
GODOFREDO - O tesouro é meu. Só
meu... Estou rico, rico... Muito ouro, ouro, ouro! (VAI SAINDO. CACIQUE
PERI ENTRA NA SUA FRENTE) Sai da frente, seu idiota!
CACIQUE PERI -
Godofredo mentiroso! Toda tribo almoçar Godofredo! (ASSOBIA. OS ÍNDIOS
QUE ESTAVAM MEIO AFASTADOS FECHAM GODOFREDO. ELE TENTA ESCAPAR, MAS POR
ONDE QUER QUE VÁ, OS ÍNDIOS O CERCAM. FAZEM A MESMA COREOGRAFIA DE
QUANDO PRENDERAM VOVÔ, LUCINHA E JUNINHO, AMORDAÇAM GODOFREDO E EM
SEGUIDA COLOCAM O BANDIDO NO CALDEIRÃO)
GODOFREDO - Me soltem, seus
índios fedorentos de uma figa! Vou me vingar de todos vocês. Um por um,
seus idiotas. (AMORDAÇAM-O. ELE FICA RESMUNGANDO O TEMPO TODO).
(VOVÔ
PEGA A ARCA QUE GODOFREDO DEIXOU NO CHÃO E TIRA UM PEDAÇO DE ARAME DO
BOLSO. ENFIA-O NO ENORME CADEADO DA ARCA, ABRINDO-A. UMA FORTE LUZ
DOURADA ILUMINA A CENA. TODOS FICAM ENCANTADOS. TIRAM DA ARCA TODO O
TIPO DE JÓIAS E SE ENFEITAM, PRINCIPALMENTE OS ÍNDIOS).
VOVÔ - (SATISFEITO) Agora que cumpri minha missão, vamos voltar pro nosso sítio, crianças.
CACIQUE PERI - Cacique Peri dá metade ouro pra homem branco!
VOVÔ
- (DIGNO) Me desculpe, seu Cacique, mas não vou aceitar. Esse tesouro
não tem valor nenhum pra mim. Não vim aqui com a intenção de querer o
ouro. Todo o tesouro pertence a você e a sua tribo... Sabemos que a
tribo está passando por dificuldades e esse tesouro irá ajudá-los a
superá-las. É uma recompensa...Claro que esse tesouro não vai apagar a
dor da tribo em relação à Eulália, mas com ele o senhor poderá dar uma
vida mais digna para o seu povo... Só te peço uma coisa: solte esse
imbecil, esse ensebado xexelento. (APONTA GODOFREDO) Mais cedo ou mais
tarde ele vai ter o castigo que merece
CACIQUE PERI - Não. Cacique Peri começar ritual...
VOVÔ - Não faz isso, seu Cacique.
(OS
ÍNDIOS REAVIVAM A FOGUEIRA. GODOFREDO SE DEBATE NA ÁGUA. OS ÍNDIOS
CANTAM E DANÇAM EM VOLTA DO CALDEIRÃO. VOVÔ TAPA OS OLHOS DE LUCINHA E
JUNINHO. NO MEIO DO RITUAL O CACIQUE PÁRA).
CACIQUE - (NUM GRITO)
Páraaaaaa!... (OS ÍNDIOS PARAM) Carne bandido muito dura! Carne bandido
dá dor barriga. Bandido deixar Cacique e tribo caganeira!
(OS ÍNDIOS RECLAMAM, MAS SOLTAM GODOFREDO, QUE PRAGUEJA).
GODOFREDO - Vou me vingar de todos vocês! Não me chamo Godofredo se isso não acontecer...
(SAI
CORRENDO, ENTRANDO NA CAVERNA. NESSE MOMENTO APARECE O DRAGÃO. A TERRA
ESTREMECE COM O SOM ATERRORIZADOR DO BICHO. JUNINHO, LUCINHA E VOVÔ SE
ESPANTAM AO VÊ-LO. ELE PEGA GODOFREDO E O LEVA PARA A MESMA CELA DE
EULÁLIA. A GRADE DESCE RAPIDAMENTE, TRANCANDO O BANDIDO).
GODOFREDO
- (PRESO; CHACOALHA AS GRADES) Alguém me ajude! Me tirem daqui! Não
deixem que esse monstro me faça mal!... Eu sou muito jovem pra
morrer!... Vocês todos vão me pagar, malditos!
(COMEÇA A SUSPIRAR)
VOVÔ
- Agora vamos embora. Todos devem estar preocupados com a gente. Até
breve, foi muito bom conhecer vocês. (A VELHA CHORA) Não precisa
chorar, velha!
VELHA - Tadeshimã acobaquire! (DIZ QUE VAI SENTIR SAUDADES)
VOVÔ - Nós também vamos sentir saudades, mas logo, logo voltaremos aqui pra visitar vocês, certo? Até breve!!!
(TODOS
SE ABRAÇAM. VOVÔ, LUCINHA E JUNINHO SAEM PELA PLATÉIA. ANTES DE SAÍREM,
ACENAM COM AS MÃOS EM SINAL DE DESPEDIDA. O CICLORAMA DESCE DO
URDIMENTO E APARECE A IMAGEM DA ÍNDIA EULÁLIA. QUE SORRI PARA ELES EM
SINAL DE AGRADECIMENTO. TODOS OLHAM ADMIRADOS PARA AQUELA IMAGEM E
FICAM CONGELADOS. FUSÃO PARA UMA NOVA IMAGEM: EULÁLIA, PRESA NA GRUTA,
COBERTA DE JÓIAS E SUSPIRANDO COM O OLHAR MELANCÓLICO. CLOSE NO ROSTO
DA ÍNDIA. BLACK-OUT).
FIM
NOTA: O texto foi baseado numa
lenda indígena. Criei um vocabulário próprio para a Velha das Cavernas,
o “cavernês”, assim como o dialeto indígena que não é o tupi-guarani
nem outro dialeto. Trata-se de uma brincadeira com a linguagem, que
deverá ser explorada ao máximo.