A bienal, o abismo do meu sonho e o olhar de Ofélia
e Sérgio dos Anjos. Estava pensando em subir a Serra para ir à Bienal, o problema é a paisagem no caminho..Esse Éden ininteligível falsificado pelo olhar, a ser transformado em nada..Essa paisagem será a última da fila, um nada, alguns anos antes ou depois da Amazônia..(E daí?
Quantos ecologistas irão tocar fogo no corpo até lá? Eis a questão). Como ia dizendo, o problema de ir até a Bienal é ter de atravessar a Serra do mar antes e depois, a paisagem da mata atlântica vale mais do que o catálogo da bienal..Ela é uma fusão impossível das obras de Turner e Van Gogh presentificadas e mediadas pelo vidro do ônibus...Meu véu de Berkeley?
As última exposição que fui ver enfrentando esse paradoxo, foi a do Nuno Ramos..Gosto do trabalho dele..O Nuno Ramos já estava no 'Túmulo da lebre' do Beuys,nas Folhas-sêcas do Nélson Cavaquinho, num buraco cavado no mangue de Cubatão por um porco-do-mato fugindo do incêndio de Vila-Socó,nos cães "suicidas" que tentam sem sucesso atravessar a Anchieta e a Imigrantes, em uma cratera de 100 metros em Serra-pelada transformada em um lago cremoso pela land-art das nuvens...O fato que destrói todas as retóricas é que tenho que separar uma grana para subir a serra num maldito ônibus...Na última viagem que fiz..A do Nuno Ramos..Sonhei que Santos Dumont havia sido eleito no lugar de JK..No meu sonho Brasília não existia e a sede do governo era no Xingu..Talvez a questão seja até mais simples...O que eu vou fazer nessa porra de bienal se não haverá nada lá que possa ser comparado com a Capella Sistina?
Mudando "completamente" de assunto..Ontem revi o Hamlet do Zefirelli em dvd..O filme é uma bosta..Zeffirelli é Burocrático e sem ousadia, como cineasta foi um bom cenógrafo do Luchino Visconti..valeu rever pela cena da Ofélia enlouquecida..Helena Boham Carter é uma Ofélia com o olhar intransponível de uma esfinge...Uma Ofélia com o olhar do Bispo-do-rosário.