Edição 16

A rua de cima

Márcio Américo

era garoto admirava os meninos da rua de cima. Eram maus, pelo menos o que eu imaginava ser mau. Andavam em bandos, não temiam ninguém. Os garotos da rua de cima pareciam livres, mesmo na escola, com suas limitações neuronais, eram temidos. Eles não eram craques, a maioria não, mas em campo eram os reis.

Ninguém se atrevia a ganhar deles. Os meninos da rua de cima estavam sempre criando coisas: carrinhos de rolimã, patinetes, pipas, engenhocas para o prazer. Os meninos da rua de cima não tinham leis. Quando voltava da escola, perto da hora do almoço, costumava passar pela rua de cima, meio com o cu na mão, mas passava.

Me sentia como aquele cowboy que chega sozinho a pequena cidade do velho oeste já sabendo que sua cabeça esta a prêmio. Em alguns momentos eu simulava sacar minha arma. Saí da vila nova, me tornei um adolescente e ainda cultivava o prazer em caminhar pela rua de cima.

Agora eram outros jovens que moravam na rua de cima, suas engenhocas atendiam a outras expectativas que o prazer: assaltos, assassinatos... os meninos da rua de cima apavoravam. Mesmo lutando contra minha consciências crista, não conseguia deixar de nutrir admiração.

Olhava os garotos da minha igreja, todos tão certinhos, com seus cabelos alinhados, eles me davam pena. Estes garotos, imaginava eu, deviam partilhar daquela cantiga idiota sobre alguém querer ladrilhar uma rua todinha só pra uma garota desfilar por ali.

Um dia eu resolvi ir pra rua de cima e viver lá. Durante muito tempo foi bom pra caralho. Me sentia um verdadeiro outsider. Mas ai, depois de uns anos, comecei a observar que a maioria das pessoas que viviam ali na rua de cima, estavam planejando mudar-se pra rua de baixo.

Muitos que estavam ali haviam abandonado suas casas na rua de baixo. Outros tinham mulheres os esperando na rua de baixo. Eles iriam voltar. Eu andava pela rua de baixo com um buraco na testa, mas mesmo assim sentia o olhar de outros garotos querendo tomar o meu lugar, me fitando com um misto de devoção admiração.

Encontrei muita gente da rua de baixo andando por lá... alguns só fazendo turismo, outros já estabelecidos, outros sendo velados na calçada da fama. Voltei. A rua de cima é frenética, pessoas chegam e saem a todo momento. Agora, quando sento aqui pra escrever, há um buraco na minha cabeça, um rato passeando pelo meu cérebro, eu sei que é só o desejo de ir pra uma rua que não existe, é só inadequação.

Durante toda a minha vida me foi vendida a idéia de felicidade, realização e agora, vendo que ela não existe, fica este vazio que nem uma rua pode preencher.