Apague a luz ao sair
Às vésperas da visita do embaixador de Deus à Brasiléia, comecei a
pensar nas antigas estruturas e nos tradicionais diretores da velha
sociedade em que vivemos. Não importa que a religião tenha sido
responsável por inúmeros massacres ao longo da história, que a idéia de
um deus a regular o humano leve a um comodismo diante da existência ao
sacar a noção de uma bondade desinteressada e que isso seja um próprio
contra-senso em relação à literatura bíblica. Assim como também não
importa a consciência de que a Terra está indo pro buraco depois de
décadas de capitalismo exacerbado.
A sustentação deste sistema social, de máquinas à frente dos homens,
está com seus dias contados, como mostrou o filósofo e teólogo Leonardo
Boff em artigo intitulado “Em busca da Arca de Noé”, ao citar uma
conclusão do especialista em biodiversidade Edward Wilson: seria
necessário mais três terras iguais a esta para universalizar os bens
dos países industrializados.
Enquanto isso, nos Estados Unidos há a briga para continuar a ocupação
do Iraque, ainda que inúmeros indivíduos sejam mortos cotidianamente
numa guerra sem sentido e cuja premissa é reconhecidamente mentirosa.
A televisão aberta chora suas naftalinas e tenta recorrer a algum Tio
Patinhas ou Professor Pardal que a libere do fatal destino diante do
avanço tecnológico, que liberou as pessoas para conteúdos disponíveis
em outros aparatos, como celular, internet e TVs fechadas. Haverá agora
a televisão digital, e conseqüentemente a intensificação da
segmentação. Mas ainda assim é seguida a velha fórmula jornalismo
vazio, dramaturgia frágil e muito esporte para segurar o tranco.
Por aqui, juízes são presos inventando sentenças, advogados aparecem
nas câmeras escondidas discutindo a propina para liberar o traficante
Zé do Saquinho Branco, apresentadores de programas de anjinhos são
detidos nos States, pipoca chumbo para todo lado nas favelas cariocas,
morre mais gente assassinada do que em uma guerra civil.
Mas a publicidade continua mostrando que comer a deliciosa manteiga
fará você bonito e feliz e usar aquele creme contra rugas tornará você
a mais gata de todos os séculos ainda que sua idade seja 975 anos.
O fato é que, com tanto absurdo e tanta informação, ninguém sabe coisa
alguma, e os poucos que sabem algo tentam afastar a pólvora das mãos
com medo das portas do presídio ou manicômio serem trancadas.
Sabemos que caminhamos para o fim, que seguindo a linha atual de
produção para sustentação das instituições e indivíduos os recursos da
Terra se esgotarão, sabemos que a sobrevivência da economia atual não
abriga espaço para todos os indivíduos. Ou seja, para financiarmos a
sociedade como ela está é necessária a criação de excluídos.
Vem sendo assim há muito tempo, mas o funil aperta e hoje há um grito
quase impossível de não enxergar: o aquecimento global como prova de
que estamos no caminho errado.
Mas continuamos abrindo portas para entrar na indústria e montar a
maior quantidade possível de automóveis, continuamos tomando nossos
longos banhos e utilizando os produtos vendidos pelas mídias como
benéficos à nossa saúde ainda que destruam a saúde social, continuamos
apresentando velhas novelas sobre o infindável e proibido amor do
Jericoaquara Megamix com a Lindalva Feiolina e continuamos produzindo
velhas pecinhas de teatro sobre desvio de verbas para a massa sorrir ao
final do espetáculo, ao lado das pizzas e pipocas desta nossa vida
fragilmente encenada.
Até quando?
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