Edição 2

Ponte Belga

Bárbara Lia

de boteco. Papo de artista. Eles não sabem, mas, a mulher é morta. Virou ponte belga, metamorfose instantânea, desejo incorporado de ser a cena que ele narra: Uma ponte belga ao pé da serra - poesia na voz do cantador. O poeta nem sabe, me concebeu e pariu e (re)nasci ali, fui virando ferro, fui virando ponte, meus pés plantados entre pedras e o fio doce murmurante do riacho.

Meu corpo um trilho antigo, foi solidificando e eu fui abandonando a dor que chega dos estilhaços de um blues. Os Beijos da serra, aquelas flores que serpenteiam a Serra Graciosa foram enroscando-se em meus braços e seios e cabelos... Eu quase ponte fosca, enferrujada, onde nenhum olhar humano alcança, entre serra, entre riachos, quadro enfumaçado de Monet.

E o som estéreo do carro dos sonhos que se mistura a voz que me plasma, e à última fisgada do coração em postas. (é o sonho freguesia, passando na sua porta, tem de nata, tem de creme, tem de doce de leite) Doce deleite decepado por olhares tantos e palpites tontos e pelo espanto do amor.

O sonho passou pela minha porta, ficou o escárnio dele, a minha dor – a mulher é morta – Agora o gosto de ferrugem na garganta, ressuscito ferro e nem tenho tempo de dizer ao Raymundo, que aquela canção dele eu a adoro - paro tudo quando toca na Fm 97.1 – que é linda linda linda linda...

Virei ponte estagnada, enferrujada, paisagem bucólica da serra, ouvindo em eco a última nota musical do moço genial cantando assim... Acabou-se o tempo, diz meu coração. É chegada a hora de uma opinião: Já não tenho medo de não ser feliz. Me livrei do mal cortei a raiz.

E agora, sem demora, pego o trem e vou-me embora prá onde eu sempre quis. Quero mais o sol barco e anzol. Quero ver o céu e tocar o chão. Quero um violão lápis e papel. Uma tela em branco tintas e pincel. E um motivo que me agrade que me alegre e me leve prá onde eu sempre quis.

Acabou-se o tempo de não ser feliz. Quero mais o sol diz meu coração. Já não tenho medo de uma opinião. É chegada a hora quero um violão. E um motivo como agora que me leve embora prá onde eu sempre quis.* *Como eu sempre quis (Trenzinho da Graciosa) Raymundo Rolim (poeta, músico, formado em Filosofia pela UFPR, presidente da Associação dos Músicos do Paraná).