Ponte Belga
Mesa de boteco. Papo de artista. Eles não sabem, mas, a mulher é morta. Virou ponte belga, metamorfose instantânea, desejo incorporado de ser a cena que ele narra: Uma ponte belga ao pé da serra - poesia na voz do cantador. O poeta nem sabe, me concebeu e pariu e (re)nasci ali, fui virando ferro, fui virando ponte, meus pés plantados entre pedras e o fio doce murmurante do riacho. Meu corpo um trilho antigo, foi solidificando e eu fui abandonando a dor que chega dos estilhaços de um blues. Os Beijos da serra, aquelas flores que serpenteiam a Serra Graciosa foram enroscando-se em meus braços e seios e cabelos... Eu quase ponte fosca, enferrujada, onde nenhum olhar humano alcança, entre serra, entre riachos, quadro enfumaçado de Monet. E o som estéreo do carro dos sonhos que se mistura a voz que me plasma, e à última fisgada do coração em postas.
(é o sonho freguesia, passando na sua porta, tem de nata, tem de creme, tem de doce de leite)
Doce deleite decepado por olhares tantos e palpites tontos e pelo espanto do amor. O sonho passou pela minha porta, ficou o escárnio dele, a minha dor – a mulher é morta – Agora o gosto de ferrugem na garganta, ressuscito ferro e nem tenho tempo de dizer ao Raymundo, que aquela canção dele eu a adoro - paro tudo quando toca na Fm 97.1 – que é linda linda linda linda... Virei ponte estagnada, enferrujada, paisagem bucólica da serra, ouvindo em eco a última nota musical do moço genial cantando assim...
Acabou-se o tempo, diz meu coração.
É chegada a hora de uma opinião:
Já não tenho medo de não ser feliz.
Me livrei do mal cortei a raiz.
E agora, sem demora,
pego o trem e vou-me embora
prá onde eu sempre quis.
Quero mais o sol barco e anzol.
Quero ver o céu e tocar o chão.
Quero um violão lápis e papel.
Uma tela em branco tintas e pincel.
E um motivo que me agrade
que me alegre e me leve
prá onde eu sempre quis.
Acabou-se o tempo de não ser feliz.
Quero mais o sol diz meu coração.
Já não tenho medo de uma opinião.
É chegada a hora quero um violão.
E um motivo como agora
que me leve embora
prá onde eu sempre quis.*
*Como eu sempre quis (Trenzinho da Graciosa) Raymundo Rolim (poeta, músico, formado em Filosofia pela UFPR, presidente da Associação dos Músicos do Paraná).