Eu não existo aqui
um problema seríssimo com as expectativas, com os planos: sou uma viciada compulsiva, inveterada (e incurável) das duas categorias de projeções citadas acima, o que faz com que eu me estrepe de verde e amarelo em número consideravelmente maior do que a maioria das pessoas com a metade da minha idade.
E mesmo consciente disso eu não me exemplo, não tomo vergonha nessa cara de boneca que vejo no espelho todo santo dia. Pelo contrário, eu a quebro em número e tempo recorde. Tô pra entrar no Guinessbook... e nem ligo. “Tô nem aí”. Coloco compressa, band-aid, mertiolate, o caral(piiiii) de asa e depois começo tudo de novo...
É bem verdade que metade de mim odeia essa compulsão pelas expectativas, essa ânsia de organizar o futuro, porque sabe que nem tudo o que quero acontece do jeito que espero, mas a outra metade passa a mão na minha cabeça porque não quer viver ao Deus dará.
E é assim porque não sou nenhum exemplo cristão: não sou batizada, não vou a igreja, não sou virgem, sou a favor do aborto, uso camisinha, não vou com a cara do Papa e não pretendo passar a vida inteira com o mesmo homem a não ser que ele me trate muito bem.
Mas muito bem mesmo. O que significa que essa balela do “tá escrito” não cola comigo. Deixando a minha não-cristandade de lado, o fato é que pra não me ferrar eu procuro pensar duas, três... dez vezes antes de fazer alguma coisa; tô sempre tentando ponderar, pesar os malditos contras e questionar os benditos prós, e quando, ainda sim, dá tudo errado: eu acabo apelando pro improviso - a prova irrefutável do meu egoísmo, da minha vontade exorbitante de me dar bem...
- é um negócio instintivo sabe? Imediato. Tipo: pá, pú! Ali ó, no ato. Deu errado? Vou lá e tento emendar, concertar, remediar. Acho que todo mundo faz isso, não faz? Mas não tô aqui pra falar de todo mundo, então deixa eu voltar pro meu umbigo, pro querer “me dar bem”: quando digo isso não me refiro a grana, nem a fama e nem a cama.
Embora as três rimem, a primeira e a última sejam desejáveis e a do meio dispensável, pelo menos pra mim. Só tô falando que tenho essa mania idiota de querer planejar o que não se pode planejar. Minha avó me consola dizendo que “se não aconteceu é porque Deus não quis” daí eu fico pensando: “o que diabos deu em Deus pra ele implicar comigo?” mas depois eu lembro que não acredito nessas coisas e reafirmo a teoria de que sou dona do meu destino.
O problema é que acabo me perguntando se não sou uma dona muito negligente, já que meus esforços mentais e físicos vivem me deixando na mão... Acontece que hoje, mesmo não sendo devota e ainda na condição de ovelha negra da cristandade, voltei a pensar em Deus, e nem me senti culpada por isso, sabia?
Deve ser porque quando penso nele normalmente é pra questionar as coisas que o povo atribui a ele e hoje não foi diferente. Já acordei pensando: “Deus não deve ter feito o mundo de supetão em 7 dias. Se ele fez mesmo essa joça, aposto que tinha um belo de um plano”...
Então, se Deus - atenção!!! -, se DEUS - todo maiúsculo e todo poderoso como o povo quer que ele seja - planejou, porque “eu” - reles mortal toda minúscula - não posso planejar também? Por que me sentir tão mal por não querer entregar minha vida ao relento, à sorte grande e cega que anda desgovernada pelas ruas desse mundo sem porteira?
Eu hein, não vou mais me sentir assim não. Parei. O que é meu eu tomo de conta. A vida é minha e eu me reservo o direito de fazer planos, de esperar, de desejar, de idealizar, de inventar, de viajar na maionese com gosto de catchup e achar bem gostoso.
Se tudo for uma grande ilusão eu improviso. E se até o improviso der errado: que se dane! Pelo menos eu vivi e não deixei meu cérebro atrofiar por falta de estímulos criativos... Eu agüento quebrar a cara outras mil vezes se for mergulhando bem fundo, mas não suporto a idéia de morrer afogada na poça rasa das lágrimas que eu choraria se deixasse o vento guiar minha vida ao invés de tomar a responsabilidade todinha pra mim.
Um dia isso tudo vai pro espaço, inclusive euzinha aqui e aí sim: só me restará o pó, e uma vez pó não precisarei de planos. Quero mais é aproveitar enquanto tô aqui, vivinha da Silva: um metro e setenta de carne e osso! É como dizia a avó do Saramago: “O mundo é tão bonito e eu tenho pena de morrer.” É minha gente, eu tenho pena de morrer.
Eu quero mais é um plano B.