Duda Bandit, o hematófago
o hematófago Saulo Ribeiro Tem gente que coleciona vidros de botica... outros fazem yoga. Alguns, de tão azarados, tentam suicídio, tentam... Bandit gosta de motos japonesas, lê L.F. Céline e faz farras com putinhas... mas essa noite não. Precisa de caça...
nada de comércio, minas à escolha no jornal... Seis andares em cima da rua sete... Bandit na janela do apartamento olha quem passa... as pernas parecem tão longas no passo... vontade de descer, entrar no Bimbo e tomar uma cerveja no balcão, manjar os tipos...
quem sabe aquela moça? É terça-feira. A rua logo vai ficar vazia, é preciso ir depressa. Não. Uma pilha de processos na mesa, tanto papo para conseguir trabalhar em casa e furar logo na segunda semana? Os habitantes da noite, fauna escassa em Vitória.
Bandit olha a pilha de papéis, os códigos do lado, doutrinas... “esses penalistas certamente não trepavam” – pensa com convicção. Senta, digita algumas palavras... pára. Recosta, bota as mãos na nuca e lembra de quando as coisas pareciam mais simples, o que deu errado, droga?
O telefone toca. Atende e uma voz feminina, rouca, provavelmente bêbada: “Rafael?” – Não, querida, você errou o telefone do anjo, mas se você quiser.... Ouve o pi.pi.pi.pi.pi... imóvel e patético por cinco segundos e volta à janela. Os guindastes do porto vistos por uma fresta entre dois prédios, imaginou-se levantado por um deles e depois, numa falha operacional imperdoável, sendo despejado no mar.
O burburinho das vozes na rua, seis andares abaixo, faziam a solidão começar a doer. Vampiros são assim, fazem tudo por solidão, só pra desejar companhia depois... Foi até a estante e entre empoeirados livros de Marx e Hanna Arend achou os poemas de cárcere do Ho Chi Minh, pensou em jogar um deles na petição: escolheu aquele em que Ho Chi Minh caminha pelas montanhas e os tigres não o incomodam, mas na planície é preso por outro homem...
não fazia muito sentido na peça processual, mas, porra, pouca coisa faz sentido nos tribunais. O tédio comia pelas bordas... a imagem de cada móvel na sala trazia desconforto, teve nostalgia de amor passado. Sentiu na cabeça os cafunés de mãos delicadas, ouviu vozes suaves de fêmea...
mas não veio à mente nenhuma trepada, o que evidenciava que mais um pouco de tempo ali sozinho estaria fatalmente fodido, melancólico e fodido. las muchachas!... todas as mulheres quando foram embora disseram coisas semelhantes, o que ele mais ouviu foi “nunca mais, cara”.
Algumas não disseram nada, as melhores. Teve uma que pinchou palavrões na parede... foi lindo. O tédio... pode saber, boto o dedo na cara de qualquer padre, teólogo, filósofo, sacana, aproveitador, bispo da Universal, etc... digo que deus e o diabo vão manter o jogo equilibrado eternamente, com ligeira vantagem para o inferno...
Porra, o tédio é o contraponto, o inimigo. No fundo o capeta é um aliado do divino na luta contra um mundo plano, enfastiado... Bandit sabia disso, sabia da natureza do divino. Pronto. Descer ou não descer à rua deixou de ser uma questão pessoal para virar um questionamento filosófico sobre “a natureza do divino”, porém, o único Divino com quem Bandit simpatizava de verdade era um mulato cheio de ginga que cumpria um restinho de pena no Instituto de Readaptação Social – IRS, lá na Glória.
Tédio, trabalho, tédio... Perguntou-se de repente: “O que diria Henry Miller nessa situação?”... nada, sairia simplesmente em busca de boceta. Pouco depois estava no elevador... saiu, sentiu o ar da noite, úmido pela chuvisco que cessava, respirou fundo...
sentiu falta de gente aglomerada, mas só para ver... andou, Ceará fechado, Nakano quase vazio, apenas uma mesa com conhecidos, todos homens, esquivou-se... às vezes detestava a companhia masculina.... Suportava apenas o Hugo, porque tinha a capacidade de sonhar sem ser babão.
Chegou no Bimbo, relativamente cheio... procurou por Nina, a garçonete dos bons conselhos... de folga... homens, apenas homens no boteco. Resta a cerveja e pescar o papo alheio... futebol, trabalho, reformas, política... foi na Jukebox e procurou Rauzito...
o som começa e muita gente reclama da quebra da hegemonia de Bruno & Marrone no espaço. Dá de ombros, termina a cerveja, a música, paga a conta e volta pra rua. Pensa... pegar a moto e sair está fora de planos, chuva fina e indecisa desde o entardecer...
vai andando, tentando descobrir coisas novas na arquitetura da cidade. Inútil. Bandit é capaz de descrever todos os casarões antigos, monumentos, praças... cinco anos por essas ruas passam rápido, deixam fotografias na memória, algumas serenas, outras gravadas com muita dor.
Os bares do porto estão fechados, já é tarde. Entra na Princesa Isabel, putinhas concentradas, recebe propostas de sexo em promoção: “hoje não, minha linda!” – Não era desse jeito que Bandit queria mergulhar na carne. Nem teria saído de casa se assim fosse, chamaria uma putinha universitária delivery...
“hoje não”. Prossegue e chega no parque, um bar aberto ainda... pequeno. Gente em torno do balcão circular, de modo que os clientes se encaram como uma mesa redonda, um seminário, parecendo essas frescuras de universidade. Senta no meio. Conhaque. Vários homens, duas bichas e uma coroa meio passada, lembrava Gertrude Stein retratada por Picasso, porém, vestia cores mais alegres.
“Como é difícil cobiçar nesta cidade”, pensou. Mas era fim de madrugada, não a desprezaria como possível vítima, aceitaria uma refeição menos farta – tudo que quer é aliviar esse troço que dá no peito, uma agonia que dali parte para o pau, sobe à cabeça, contrai as mãos, um corpo para dissolver-se e remontar-se em novas bases, renovar-se a cada trepada, sexo, daí o sentido de “comer boceta”, a cultura popular nunca é tola, comer, alimentar-se, devorar, fazer-se daquela matéria, dali saímos...
às origens – Drácula recupera suas forças na Romênia. Gertrude, a do boteco, com duas bichas... um dos veados falava alto, mostrava seus conhecimentos de cinema italiano... De Cicca, Pontecorvo, Antonioni, Bertolucci, mas falava mal de Fellini... Bandit entra no papo, comenta que gosta de E la nave va, ressalta que Amarcord trás recordações absurdamente lindas de um passado não vivido – a Bichona Falante mira Bantid e morde os lábios, a Bichinha Calada baixa os olhos...
Gertrude sorri, com poucos dentes –, “de qualquer forma”, prossegue Bandit, “o filme de Fellini que mais me identifico é Os boas-vidas”... Bichona fica indignada por perder o centro de atenções e de ser questionada. Gertrude senta do lado e pergunta o nome do cara: “Duda, Duda Bandit”.
Bandido, ladrão? “Não, é que ando de moto, uma Suzuki Bandit... Duda tem um monte por aí, recebi o apelido pela motoca, distinção”. Bichona experimenta uma mudança de tática... não quer perder sua platéia de bêbados... Nanni Morett, o que Bandit pensa do péssimo cinema feito por Nanni Morett?
“Autobiográfico e levemente massificado, incisivo... me agrada profundamente”, responde o hematófago. Gertrude pôs-se a brincar com o joelho do vampiro, os dedos subiam pelas cochas e desciam... o pau reagia. Gertrude bêbada lembrava as mulheres de Bukowski em seu memorável livro a elas dedicado.
Bichona partiu para os americanos de raízes italianas, elogiou Tarantino... Bandit, do contra, jogava na sua cara, rugindo, que Tarantino atualmente era um bocó deslumbrado com efeitos especiais, uma criancinha mimada que ganhou moral e fortuna com seus bons filmes para torrar tudo agora em películas idiotas.
A bicha franziu a sobrancelha, lacrimejou e pediu para Bandit perdoar o Quentin, e o fez também prometer que iria ver o próximo filme do cara... Não desiste de Tarantino, Bandit – derreteu-se, lânguido... “Tá bem, anjo! Não desistirei, mas por sua causa”.
Bichona ficou satisfeita. A platéia se acalmou. Gertrude, a pretexto de cochichar no ouvido, metia a língua lá dentro... Bandit foi gostando... uma ereção cavalar... Vamos, meu bem – disse Gertrude... Bandit deu um beijo no rosto do veado para amenizar as altercações e mandou Gertrude esperar lá fora, enquanto ia no banheiro...
Bichinha Calada disse as primeiras palavras da noite, quase que suspirando: adoooro Pasoline.... Bichona Falante fez cara feia, mas não disse nada, somente recomendava a Gertrude que cuidasse bem do boff. Bandit pegou o corredor em direção ao banheiro e notou que Bichinha Calada vinha atrás...
Bandit desabotoou a calça, abriu o zíper, quando ia direcionar o pau no mictório ela pediu para segurar enquanto ele mijava... respondeu que não, iria travar... ela disse que não travaria, que tinha técnicas apuradas... Bichinha pegou o pau do vampiro, apontou na direção da louça, sua técnica era imitar o barulho de água corrente com a boca.
Olhava Bandit, o pau e ria... ria... e imitava uma torneira aberta. Quando a mijada acabou o veadinho já ia colocar o cacete na boca, quase abocanhou, mas Bandit aplicou-lhe um violento soco e Bichinha foi parar no canto do banheiro, recolhida, amedrontada...
Ele foi em direção à porta, mas parou....pensou, “porra, mas que mijada boa”... voltou-se para o viadinho, caminhou lento em sua direção, pensava só na porra da mijada boa... parou em frente a Bichinha, ainda caída, pegou seu queijo com doçura, levantou até a altura dos quadris, Bichinha ficou de joelhos, ele tirou o pau e ofereceu dizendo: “Por Pasoline, baby...
capricha!".