Pingos d'água
a chave para a posição fria. Abro o registro no máximo e me sento no azulejo gelado deixando a água fria cair sobre minhas costas. Nos primeiros segundos sempre perco a respiração. Faço sempre isso quando quero esquecer do mundo, ficar sozinho e não pensar em nada que me aborreça.
Lembro-me de coisas banais, como a seleção de Telê, os ratos brigando no fundo falso do assoalho de casa e eu com medo não conseguindo dormir. Ainda tenho medo deles. Dos ratos. Penso nos amigos de mentira que criava. Que fim deram todos eles? Não consigo recordar em que momento deixaram de existir.
Será que cresceram como eu? Tinham nomes os amigos e conversavam muito comigo. Sinto falta deles. Por um momento cesso todo o pensamento e me concentro no barulho que a água faz ao encontrar meu corpo e o piso gelado. Sempre gostei do som de pingos d’água.
Pingos de chuva molhando os vidros da janela. A torneira da pia pingando, enchendo panelas sujas e com sobras do jantar. A goteira no teto, enchendo a bacia de alumínio e respingando no chão da sala. Gosto do som de pingos d’água. Olho para cima e tento fixar meu olhar na saída de água do chuveiro.
Consigo por alguns instantes. É bonito verem eles se aproximando e se agigantando até tocarem meu rosto. Com o tempo, percebo meus dedos murcharem. Fecho o registro. Puxo a toalha saio me secando e deixando marcas d’água pelo chão. Retorno à chave para à posição quente.
Posso ouvir o som das últimas gotas tocando o azulejo e se perdendo no chão. A solidão tem esse som.