Edição 3

Mudez e Munch

Assionara de Souza

horas pra aquilo e só depois via a tua letra até a voz sumiu” Luci Collin Aquele dia, na ponte, o seu jeito de arrumar os cabelos. Parecia que você ia gritar. Eu disse pra ele depois que você tinha algo de Munch. Mas ele estava com fome. O recado é o seguinte: pra você não procurar mais.

Ele não quer saber mesmo. Essa modernidade com data de validade. Ele não quer saber. Ele está enjoado. Ele acha que já deu. Ele repete: “Pra mim já deu!”. O cara é paranóico, você percebe? Consegue entender? Pra mim não deu. Nunca deu. Pra mim. Aquele dia, nós íamos por lados opostos na ponte.

Eu vi você primeiro. Gostaria sério de ter poderes de não ver o que não posso ter. Essas marcas coloridas. Ah, sempre gostei. E não pude ter. Por um tempo. Essa presença louca que você imprime no mundo. Escuta. Escuta o meu olho. O seu jeito combustível está entre as coisas que eu levaria pra casa.

Você entende? Pra minha caixa secreta. Eu apresentaria você ao meu cachorro. Os seus belos bovarys. Os dois. Quando o meu pai e minha mãe estão vendo novela. Nessa hora exata. Eu levanto do sofá. Atravesso a sala – não antes do riso que eles gostam de ver:, sim, sou tudo isso que você acha que sou:, por isso você não quer saber de mim:, sim, sou a pessoa mais ridícula que pode existir – vou direto ver a minha caixa secreta.

Onde você está sempre disponível pra mim. Ele está pouco fodendo pra você. Minhas mãos cuidadosas. Meus olhos de quem viu o fogo pela primeira vez. O que sempre imaginei – tão próximo. Cócegas no nariz. Isso até me lembra quando meu pai era jovem e encostava o queixo na minha cara infantil.

Mas o meu olho vê que não é nada disso. Se você desconfiasse. Você quer mesmo? Olha ele não quer mais saber desse ultra que você expõe. Toda essa delicadeza ele dispensa. Esse seu jeito Munch. Ele despreza. Pra mim tem muito a ver. Juro. Não iria dizer nada que você não quisesse ouvir.

Porque sempre me sinto burro diante de você. E tento ser engraçado. E me torno mais juvenil. O tempo é um escroto que chega antes de você querer gostar de mim. O tempo acaba quando você insiste que eu fale de você pra ele. E que eu fale dele pra você.

Eu acho até que ele nem é chegado. Às vezes penso que por um pouco ele não mofa de vez. Sempre com essas companhias. Essas discussões enfadonhas. Sempre depois do limite. É muito triste a minha caixa secreta. Completamente inútil. Sem a sua presença? De que vale o céu azul e o sol sempre a brilhar...

Minha mãe ouve muito essa música. E eu penso: Nada! Depois que atravessei aquela ponte. Sua marca registrada está nas coisas mais absurdas. Atiro minha arma carregada de você por aí: pow! pow! Outdoors. Ruelas. Becos. Avenidas. O seu jeito Munch está em tudo.

A cidade é você. Será que você entende? Você não entende que ele não gosta? Ele ri de você. Ele me disse esses dias que você é cansativa. Não sei como não estourei a cara dele de porrada. Ele não gosta das suas marcas coloridas. Ele acha suas pernas ridículas.

Ele me disse. E o jeito que você ri. Ele me disse. Um jeito esquizofrênico. Ele acha que você aprecia Fellini sem qualquer sinceridade. E eu penso no que seria um Fellini sem a sua existência. Todo artifício perto de seu riso? Nada! Perto dessa tristeza nervosa que você tem.

Nem Godard. Nem qualquer um. O mundo existindo no momento em que cruzamos aquela ponte. Eu e ele e você vindo. Os bovarys soltos. Os meus olhos têm lentes absolutas pra você. Eu faço coisas que você nem imagina. Abro minha caixa imaginária e fico horas vendo as fotos que roubei de você.

Endureço todo só de pensar. E de repente vem um ódio. Ele disse : você nem faz idéia do que ele disse. Disse que quanto mais você geme, mais a cena do River Ride vem inteira. O óleo acabando. Ele gosta de coisas antigas. E diz que você é over demais. Sem autenticidade.

Você faz tudo pensando nele. Esses porres todos. Eu sei disso. Você ouve bem o que estou dizendo. Esses porres. Ele não merece. Ele me disse, inclusive, que você às vezes cortava a onda . Essas gírias que ele usa. Mas não sei se quero assim. Eu sempre imaginei que era possível, depois que a gente atravessasse a ponte, existir somente dois.

Quero. Quero assim. Antes que nunca. As suas crenças tão singelas. Não queria usar essa palavra "singela". Minha mãe usa essa palavra. Eu quero muito que você saiba. A vida pode parecer entediante. Mas. Escute, não acho que seja uma boa. Eu acho tão bom quando você faz isso.

Tão bom quando você usa esse olhar. Uma vez. Lembra? Fingi que estava apagado e fiquei vendo vocês dois. Nossa, eu endureci aquela hora. E fiquei mordido de ódio. Era bem assim. Você estava realmente querendo. E eu não sei bem. Bom, você deve saber o que está fazendo.

Escuta. Aquele dia eu fiquei ouvindo a música. A música estava um pouco alta. E eu olhava pro quadro do Munch. O quadro do Munch do lado do espelho. Você sabe. Presente meu. Tive uma impressão. Ei. Você quer mesmo isso? Acho que você não sabe bem o que está querendo.

Eu quero. Sempre quis. Desde aquele dia quando estávamos atravessando a ponte. E você veio. Alguma coisa no seu jeito de andar. Nem quero ir embora agora. A música estava alta. Ele gosta muito dessas coisas antigas. E você toda destreza. Os seus bovarys soltos.

Juro. Fiquei num filme. Coadjuvante atento. E vi que você olhou câmera lenta pra ele. Você olhou "sensível diferença de Vinólia" pra ele. Eu fiquei com ódio. Eu tenho essas coisas. Não posso ver você. Minha boca. A saliva fica quente. E esse jeito. Era desse jeito que eu pensava.

Desse jeito. Tão perto agora. Exatamente esse cheiro. Ele dormiu. E você veio onde eu estava. Você sentou. Encostada na parede. O quadro do Munch descolado. O espelho. Ele dormindo com a brasca branca pra fora. E você com sua roupa mal vestida. Fumamos o último e melhor cigarro.

Auto-Retrato com o cigarro aceso. Pensei. Você escutou bem? Escutou o que eu disse? Ele não quer mesmo saber de você. Devia ter empurrado. Não. Nós dois devíamos ter pulado na ponte. Acho que é isso que estamos fazendo. Eu e você. Você está sentindo também?

Era bem assim que eu imaginava. Havia uma coisa líquida embaixo da ponte. E tanto eu quis. Tanto eu imaginei. Ninguém capaz de compreender a felicidade. Eu nesse momento compreendo. Inteiro embaixo daquela ponte. Pra você, a minha saliva quente. O meu olho filmando as mínimas partes.

E esses pensamentos entrecortados. Jamais atravessaremos a ponte. Pularemos antes. Junto ao seu. O meu grito.