Edição 3

TV do povo (ou a recepção do inferno)

Camilla Lopes

existe um lugar próximo do inferno ou mesmo similar, é com certeza a TV Comunitária do Rio de Janeiro. Uma bosta de lugar, com um monte de gente miserável reunida. Ou mesmo um colegiado – eles adoram essa palavra burocrática, colegiado- de quinze retardados que todas as quintas - feiras se reúnem em uma patética assembléia que eu tenho o desprazer de presenciar, por força maior, coisa de trabalho.

Senhores, eu não sou o foco dessa questão. Quero lhes contar sobre um lugar decadente na Lapa. Para que fique claro, é cláusula de lei que todo o município pode ter um canal de TV para a população, em resumo, qualquer associação ou entidade sem fins lucrativos pode ter um espaço nessa TV.

Aí está a merda, por isso a TV fede a falcatrua, sabe... eu estive pensando que uma das formas de limpeza da alma e de lugares em geral, é o dinheiro. Fins comerciais meus bem, faça qualquer coisa em prol do lucro que você será um cidadão de respeito.

Como toda a quinta eu devo por obrigação de ter minhas contas em dia, entregar uma meleca de programa que produzo e dirijo, conheci aos poucos os integrantes – segundo eles, voluntários- da TV Comunitária. Deixe-me falar primeiro de Ademar, o anão. Ademar escala a cadeira e se acha no direito pela deformidade física, de sempre que pode, mirar nos meus peitos.

Eu não sei o que é, desconfio que complexo de inferioridade ou mesmo o efeito colateral da inclusão social, mas Ademar até já me chamou para um chopp, ao que respondi; "Olha só Ademar, eu estou numa fase em que bebo muito, fumo muito e tenho muitos problemas.

Você melhor do ninguém deve saber que problema só presta quando vem muito. Então eu tomaria quatro chopes que valeriam por dois que você tomaria na relação proporcional que faz o seu corpo ser metade do meu. Não quero lhe ver em coma alcoólico, Ademar.

Não vai dar nem hoje, nem nunca". Com essa me livrei do anão, parece que ele comeu a secretária da TV, ela tem bigode. Desejo que ganhem dinheiro caso abram um circo de horrores. Agora eu me lembro de Zé Carlos, o comunista que só se veste de preto em protesto contra os colegas da TV; "Isso aqui é um puteiro minha filha, um puteiro"!

A ira de Zé Carlos é em relação ao Vavá, um grande filho da puta. Esse sim, merece morte lenta e eu hei de ainda em vida, ver o dia em que ele vai rodar, ou melhor, o dia em a casa de Vavá vai cair. Vavá é dono de cinco produtoras de vídeo, e exerce o cargo – ele diz que pelo bem da livre expressão do povo – de diretor de programação daquela pocilga.

Na verdade, Vavá está lá para conseguir clientes, o que é óbvio. Mas o que não se sabe, senhores, o que ninguém mesmo que soubesse não diria; é que Vavá tem uma filial de sua produtora em Brasília. Senti cheiro de treta e arrisquei; "Você tem conta de alguma estatal, não tem?" "Claro, e sem licitação.

A vida precisa de facilidades e de facilitadores e o que mais aprecio é uma mulher facilitadora com facilidades. Você me entende?" continua na próxima semana...