Edição 3

Saída

Cassiano Monteiro

saída daquele lugar lotado, onde pessoas compram coisas pra matarem o tempo, pra sonharem, pra se esconderem, pra esquecerem que estão mortas? Lá na saída havia um montão dessas criaturas paradas. Com suas caras bravas, enfurecidas com a natureza. É que tava chovendo.

Só isso. Os olhos eram de desespero. Como se aquela tempestade fosse motivo de angústia, nervosismo, ou qualquer coisa do tipo. Equívocos: humanos. Alguém me ofereceu um guarda-chuva. "Não, obrigado" - disse pra voz. Saí no meio da chuva carregando alguns livros que comprei.

Coloquei debaixo da blusa pra não molhar as obras... Uma canção na cabeça, pele arrepiada, ouvindo o barulho dos trovões. Caminhava debaixo das gotas de água daquele verão. Raios no meu mundo cerebral, particular, físico: o que dá na mesma. Meias ensopadas e os pés mornos?

Talvez. Não importa. Passando por pessoas que se escondiam nas brechas conseguidas a cotoveladas. Brigavam por minúsculos pedaços secos, pedaços recheados de nada. Pedaços sem esperança. Eu mergulhava na direção das duchas que surgiam por entre aqueles prédios enormes.

Não havia nenhum animal humano nesses lugares. Desfrutei das maiores cachoeiras. Solitariamente. Ótimo. Molhando a cara, a cabeça, a roupa. Os olhos cegos em decorrência da enorme quantidade de água que vinha do céu, de cima, do Alto. Ainda sentia o gosto de café expresso na boca.

Pisei nas maiores poças que encontrei pelo caminho. Acho que deixei escapar algumas. Pode ser? Mas tentei entrar em todas. Pessoas me dizendo, através daquelas expressões de julgamento no meio das suas fuças - "você tá louco". Eu nada respondendo àquilo.

E quem não tá, meu chapa? Quem é normal? O que é isso? A água fazia barulho, a água molhava a cabeça desse cara que mirava na direção dela. Não temo a tempestade. Desde criança que gosto de chuvas fortes. Gosto do sol também. Quero água, quero molhar minha cara.

A água pode cuspir em mim. A água eu deixo. Sempre. Poucas vezes até que deixo passar uns cuspes de algumas pessoas na minha cara. Coisa pequena, de bobocas, claro. Eles são pequenos. Eu vejo e não desvio. Na cara de pessoas que não merecem? Também. Fico na minha, como se tivesse tudo certo.

Propositadamente: uma experiência que me permito. Ver. Viver. Mas só às vezes. Sei devolver a parada, a porrada, a cusparada, o que for e/ou vier. Nunca é bom abusar de um cara como eu. Digo isso por experiências. Muitas. E olha que eu já estive em muitos lugares.