Edição 3

Racho-me

Daniel Cavana

espelhos oblíquos por dentro, não quero teu olhar. Estou onde não há culpa ou redenção. Meus passos são firmes, o corpo flexível. As ruas nunca são iguais. Rótulos cuspidos com a saliva que se perde no ar, passo por eles como por folhas secas caídas em uma tarde de outono.

Não rego as flores no verão. Ruas passando por meu corpo, formando redes de infinitas possibilidades. Surgem pontos ao toque de cada mão. Estremeço com lembranças que não são minhas. Deixo a morena passar. Inverto o eixo e continuo a girar no espaço e no tempo.

Confluência excêntrica de atratores estranhos que me rodeiam. Sensações que se abrem com as janelas para o sol de verão. De uma só vez, para trás e para baixo. Os braços giram acompanhando a brisa suave. De outra vez para diante e para cima. Entre esferas e espirais alongadas as linhas que penso ver se entrelaçam iriadas, nuas.

Vaivém em meus desejos aleatórios, consciência sem mim. Busco as respostas do quê não sei em cenas cinematográficas. Nascentes sufocadas pelo concreto. Rios cortados por avenidas. Em algum lugar deve haver um desvio. Então acelero e racho-me direto contra aquele muro.

Vapor de cafeteira no balcão metálico. Manhã fria.