Edição 3

Bossa-nova do céu incoberto

Jorge Mendes

bossa-nova com céu encoberto no compasso quebrado do medo, todos dançam adorno ocorre que cultivo o medo, a vertigem no escuro, destilados. aderi as dissonâncias, ao solo de uma nota só. desarmonizo-me, portanto. quer dizer, não sou como a moçada do hardcore que tenta passar uma mensagem positiva.

comigo, como nos versos do renato, o peso do metal vai contra as nuvens, em si. procuro, de fato, ottis readding, etta james, tim maia. isto é, um matiz blues note com doses maciças de screamin jay hawkins, o bom e velho vinho jacaré, antes e depois do vodu, obvio.

james brown, na quebrada. estou falando de alguém que dance comigo ao som dos trovões, que me chupe gostoso debaixo da tempestade, descompassadamente e "vê se ao menos me engole". quero coisas que não flutuem e nem grudem ("pra que rimar amor e dor?").

formas sólidas. nada a vácuo. conteúdo algum. soul. o negócio, no entanto, é que não tenho nenhum truque toni belloto (& família titãs) debaixo da manga. daí a capoeira no escuro. o gingado torto entre os canibais. a insensatez. claro, não sou nenhum dorival caymi, mas também posso constatar que a miscigenação finalmente deu merda (o brazil não conhece o brasil, sei).

o que importa, contudo, é o balanço do medo (incluindo aí acordes técnico-melosos pra perfeitos idiotas que "perderam a pureza" e outras cadelinhas lésbicas subnutridas do blues da piedade). essa certeza que fodeu de vez, sem dó. é bem verdade que eu poderia dar um desconto.

isto é, poderia ensaiar meu samba rasgado do crioulo doido com\passos mais afinados na estupidez nazi-autista do coro dos canalhas contentes com o próprio umbigo. ir na cadência do esgoto, por exemplo. poderia mesmo caprichar e deixar crescer o cavanhaque, usar rabinho de burro, malhar uns ferros, tomar vitaminas, agitar a pós (e/ou virar escritor/advogado), criar cuervos, comer merda, em suma.

todavia, estou apenas considerando a possibilidade da queda. o tropeço final. qualquer coisinha que faça parar de chover mortos na minha batucada da vida. posso ir na virada, inclusive. noutro plano, é bem verdade que estou mais calmo agora (pianíssimo, com ¼ de tônica no duplo, sem gelo, por enquanto) que estou morto fazendo gracinhas ("tentando mímicas", como diria itamar assumpção, o cara mais importante da música popular brasileira dos últimos tempos, pode crer).

grovin, digamos. entendo, portanto, que chegamos ao fundo e descobrimos que o buraco é mais embaixo (nenhuma starway to heaven na balada, é certo). mas não há espanto. quero dizer, toda merda bóia e o arranjo, invariavelmente, é sempre mercantil (não esquecendo, os violinos da caridade hipócrita e a orquestra de choros e lágrimas do renato aragão e suas criancinhas da esperança).

além do mais, existe a falsificação dos sonhos, paulo ricardo, pílulas antidegenerativas, deus, dengue, campanhas da fraternidade, as canções dos cuzões traídos do pé de serra e sertanejos, favelados (com idade inferior a 15 anos, sempre), servindo de avião e/ou tiro ao alvo para os assassinos da civil e raps com tênis de marca desfilando pelo piso de mármore dos shoppings.

claro, todos os nativos dizem i'am. por hora, sinceramente, quero que o barquinho afunde e que tudo o mais vá para o inferno, meu bem. isto é, se a ana maria braga e todas as apresentadoras dos programas matinais existem, o que mais pode acontecer de horrível nesse carnaval no lixo?

(por mim, só quero "é botar meu bloco na rua, gingar, botar pra fuder", e isso é sérgio sampaio e os meus cabelos no inferno, entenda). ademais, não será minha "balada para um fodido como eu" que irá aquecer o baile dos esquizos e nem aumentar o índice de audiência dos prezadíssimos canalhas do ibope (e "uma festa é sempre uma festa: as pessoas é que nem sempre são pessoas", frase do cacau, o canalha cachorrão).

sendo assim, nada de um cantinho e um violão pra mim que vivo no escuro, engolindo sapos, ouvindo cantar as sereias maníaco-depressivas da hora da estrela (e aqui não entra nenhum réquiem tropicalista para concretistas do salão dos espelhos convexos e/ou cu de tom zé para funcionários públicos, creia).

fica, portanto, apenas essa nota fora de si soando desafinada em mi(m), -"é que no peito dos desafinados também bate um coração", pois é -, pelo fim da noite, e esse canto bêbado equilibrista deslizando pelo fio afiado das madrugadas dessa longa estrada da vida (a porra toda em bemol, por favor) onde os cães não se cansam de uivar i love you, baby.

e o refrão do bolero - só para não esquecer a ciência do chico - é a mesma de sempre, quer dizer, de que lado você vai sambar, irmão.