Sobre o abraço que não foi dado
do avesso. Mostrando os pontos remendados do lado de dentro que ninguém tinha que saber. Eu tenho dessas de querer um canto pra sentar atrás de alguma coisa, só pra observar, escondida. Não é observar e tirar conclusões, desvendar a alma humana nem nada disso.
Eu gosto de sentar e ficar admirando. Olhando brilhos alheios me ofuscarem. Nenhum holofote em cima da minha cabeça, nenhum copo de dry martini sendo estendido na minha direção e nenhum isqueiro acendendo meu cigarro amassado. Eu e as minhas mil palavras indizíveis espiando terrenos alheios que não receberiam bem suas pegadas fundas, pesadas, tortuosas.
Eu olhei nos teus olhos aquele dia tentando ver se você perceberia alguma coisa lá dentro dos meus que fosse novidade. Parece que não. Você me olhava com um ponto de interrogação na testa, esperando que eu dissesse o que faltava. Como sempre tola, medrosa, cuzona, não disse.
Não pedi. Não falei sobre a minha ida pra fora de mim nem sobre meus passos errados. Esperei que você percebesse que era só me pegar nos braços um segundo. Não pedi. E aquele foi o beijo mais desesperado que já dei. O beijo mais pesado de amor, de socorro.
Mas meu grito é sempre voltado pra dentro. Saí do carro com o gosto da tua bala de hortelã na boca. Olhei teus olhinhos cansados me olhando e fechei a porta. Não pedi. Manti meus olhos fixos num ponto, cara de blasé, entrei, fechei os dois portões. Ninguém mais em vista, e eu chorei.
Não quis sair do elevador que abafava o som dos meus soluços. Me joguei naquele vento gelado do lado direito da cama, pensando "não pedi". Por deus, que bom que eu não pedi. Mesmo que precisasse, mesmo que quase tenha esfarelado na frente de todo mundo.
Quase. Mas eu não pedi. Primeiro, por que não tenho o direito. Segundo, por que eu tenho todo o direito do mundo. Mas eu continuo querendo. Mesmo que agora eu esteja forte, quase destemida, quase podendo olhar dentro dos teus olhos. Um dia eu quero pegar você pelo rosto com as duas mãos e dizer "me lê agora".
Quase posso ver seus olhos baixando, mas você tem dessas de me surpreender. De ser muito mais do que eu mereço. Então tenta ler, por que eu não peço. Nunca”