Herança
sei se vou te dizer em que pé caminha a esperança no fruto ainda na semente, ou se digo – se devo dizer – algo sobre a certeza nas coisas quadradas que se alongam até arredondarem-se. Não sei se falo – ainda há voz – de equações químicas que se resolvem em silêncio, nos livros que nunca caducam, ou se conjeturo a luta que enfrentaram os que, antes de nós, domesticaram os grãos a nascerem na horta, próximo ao apelo da mão.
Não sei se retrato a terra sitiada de onde escapou o musgo exilado que cobre as pedras, como uma pelagem de inverno, ou se explico – resta um filete de canto – os vislumbres de um futuro próximo, onde ainda se morre como em Comerciais de Metralhadora.
Não sei se devo – ou se me permitem – relatar as dificuldades dos homens nas fornalhas, derretendo o minério que irá virar bibelô de madame ou maçaneta de táxi, e conto, de mãos postas, a sua dieta fria, isenta de calorias; não sei se romantizo os vagabundos noturnos que chamo pelo nome, ou se narro as noites em que sonho com a Poesia – a inevitável – e acordo de pau duro.
Não sei se confirmo – se é lúcido confirmar – as verdades sobre a ternura dos ditadores para com suas esposas & amigos; o carinho dos carrascos & torturadores dispensados aos seus filhos & amantes, ou se, simplesmente, me calo. Não sei, talvez o poeta esteja mudo diante dos outdoors do apocalipse.