Do alumbramento à loucura
do Nascimento Ter às mãos, apossar-se dos fantasmas arquétipos que habitam as páginas, outrora fantasmagoricamente brancas, agora plamadas pelo verbo, "No princípio era o verbo! E o verbo fez-se carne." Ou fez-se texto!? É o mesmo que ter às mãos a vida de seu autor.
Humberto Werneck reafirma que um bom escritor é aquele que cria com os "Frutos" do seu tempo, afirmando-se como um sujeito sósio-histórico, Werneck viaja no tempo em busca de uma infância mítica de todos nós, povoada de deslumbramento . esse deslumbramento está presente no conto Menino no quintal e no conto Vagalume, as primeiras dúvidas metafísicas brotam, o mistério se faz diante do menino no quintal: "É como tentar pensar uma coisa tão grande que nem fosse possível...".
O quintal é todo universo, é a volta atero, útero da mãe, protegido e livre. Quantas coisas já fora esse quintal um navio de pirata, cenário de file de bangue-bangue, milhões de troços...". O primeiro conto é um convite para a volta a ingenuidade, para o mistério despido de mistério, "O mistério das cousas?
sei lá o que é mistério! O único mistério é haver quem pense no mistério". E o primeiro Amor-Ingenuo, a maneira simples de sentir as coisas, bem Caeiro, bem Pessoa. A grande dúvida: Como os filhos entram na barriga da mãe? Mistério grande. O medo do pecado, o medo do deus cristão que castiga quem peca, remorso e medo passam a fazer prte da existênci, outrora livre do passado.
"Dormir e não se lembrar de mais nada até acordar para o amanhã do quintal". No segundo conto, Vagalume, a menina Joaninha é o sonho de todos os meninos apaixonados que a cortejavam com presentes: "pedra rolada no fundo do rio, cigarra seca, maracujá, tijolo de argila escrito eu te amo, cobra-coral espetada na vara!!.
Mas o que desejava Joaninha era o menino roubar o fogo sagrado doimpo. Comer a maçã é perder a ingenuidade, perder o paraíso. Ter o fogo sagrado, a luz, é ter o conhecimento, a revelação de todos os mistérios: "O coração batia com algum medo, piscava, luz de vaglume no peito dele...
os dedos se abriram sem querer, o vagalume escapuliu noite adentro". Ali, na penumbra do mato, entre gemidos e susssuros, o mistério se defez diante do menino. A seqüência dos contos presentes no livro deixa claro que não se trata de uma antologia de contos organizada de forma aleatória, mas sim de um livro de contos-romance que demandou 11 anos para vir à luz.
O autor nos convida a voltar ao princípio da vida, à infância ao alumbramento, para em seguida nos trazer à "realidade", da qual tentamos fugir algumas vezes. No conto Oito anos é a morte que se apresenta pela primeira vez, de uma fora quase lírica: "Uma coisa que você precisa saber.
Que o menino Jesus chamou de irmã", nos vemos novamente perante a criação de um Deus cristão que puni, castiga, chama ou será mata as pessoas. Com o passar dos anos, dos contos, vamos perdendo a capacidade de ver com os olhos livres, VER sem um passado sócio-histórico, e o mistério, o alumbramento?!
Não há mais mistério! o mundo se desvela diante de nós. Seguem-se os contos, seguem-se as perdas. Crescer é perder: perder a inocência, essoas amadas, amigos que se foram, parentes ou até mesmo alguém com quem tivemos um relacionamento curto, mas a saudade perdura até hoje.
Perder, quiçá, a vida? Segue-se o conto Acontecimento de família, a dor e o remorso do pai e da mãe que perdem a fliha para o mundo, para o desejo, para a vida, são malvisto pela sociedade, por Deus: "Mesmo ali era mãe de moça falada, olhos vermelhos de Deus pesando em cima dela, mãe descuidada, mãe de moça falada: Perdão, Senhor".
Perde-se uma filha, mas ganha-se um neto, o ganho é sempre menor que a perda. Ao perdermos a inocência, esse SER sócio-histórico cansade de perde,recua diante da vida, recua diante do medo, nega a vida, negando a si mesmo. Assim se dá no conto O condenado; fugir, trancar-se em casa ou em si mesmo é uma forma de assegurar que nada será "roubado" ou perdido: "Todas as noitestranco a porta da cozinha e fecho as janelas da casa...
Por causa dos ladrões. Mas não é bem só isso". O conto se passa em uma casa ou será corpo? Nesta casa há um homem, uma mulher e um rapaz, quase nda se sabe sobre ele, exceto que morreu ou foi assassinado? Quem o matou? O homem? Ladrões? Por que a mulher o deixou?
Por que o homem tinha uma arma? Eis um conto pontuado de dúvidas, a única certeza é que um rapaz morreu, metaforicamente ou não, ele morreu. Sobra ao homem solitário, sem utopias ou desejos esperar, mas esperar o quê? "Vou esperar aqui até que o corpo e seu grto se dissolvam na memória".
Quando a rotina se torna uma perda constante de desejo pela ida, quando a "fuga" e a mentira se tornam - também - rotina, o que nos resta? o que resta ao personagem do conto Febre aos 39 degraus? "sua esposa que o observava no entanto sem enigma". "Sua cotidiana esposa cuja se decalcava sem atrativos sobre a imagem quase desfeita nos azulejos...".
Resta somente o olhar base, o desejo da fuga, quem sabe um recomeço!? Mas a rotina e o medo são sempre mais fortes. No conto Quarta-feira e Terceiro andar, novamente nos deparamos com a perda e a espera, em um; o homem preso que espera ansioso a visita da esposa, em outro; o slitário bedel que acaba por "adotar" as jovens alunas da escola, sentindo-se como um membro distante da família que zela pelo bem estar de todas, e o desejo, será ele sexual ou simplismente o desejo de ter e fazer parte de uma família?
Quando perdemos a possibilidade do alumbramento tudo se torna um dever, maçante e rotineiro dever, até a morte se torna um ritual desprovido de mistério, no conto Doloroso Dever é a morte que se anuncia após uma longa e vazia vida, a disputa de poder sobre quem se encarregará de preparar as exéquias, os coordenados do velório e os meros executantes das tarefas ligadas a ele, finda-se a vida de um, a rotina volta a fazer parte do cotidiano.
"Então pela primeira vez desde o momento que o velho fechara os olhos, os familiares se envolvem num anuviado silêncio. e assinm ficaram, acendendo cigarros". Mas por quanto tempo? Na impossibilidade de negar o passado, só lhe resta uma forma de aplacar a sua angústia, é a loucura!
Mas há quem posso dizer que a única forma de negar o passado e aplacar a angústia ao mesmo tempo é o suicídio, mas a loucura também é um suicído, é matar o EU que existia em nós, substituindo-o por outro, livre do ser sócio-histórico. enlouquecer é voltar ao deslumbramento.
Fica como "mistério" a ser lido o conto A invasão. O livro Pequenos Fantasmas, de Humberto Werneck, é; em verdade, um Romance-Contos, ele é pontuado de pequenos surtos de vida e morte, de desejo que seu filho seja sempre bem sucedido na vida, isso fez o autor deste Romance, foram necessárias décadas para que esses contos virassem um romance, cada conto um momento no tempo e no espaço.
A narrativa de Werneck se faz assim: ver e sentir cada momento como cada momento deve ser sentido e visto, ver com a pele ainda intocada ou com ela já ressecada. Vem! veja os fantasmas que habitam estas páginas, mas não só nelas, pois eles também habitam em você.