Céu de vidro
de mim serpenteiam a senda sonora onde naufrago rubra -estilhaçada- Quebrei vitrais góticos. Figuras bizantinas. Taças de licores. Pratos gregos. Quebrei negras janelas de castelos escoceses. Geadas de agosto com meu olhar de fogo. Quebrei o coração de argila onde guardo o anjo com asas de topázio.
Quebrei seu olhar, verde de espanto. Tudo aniquilo com este amar selvagem. Eu, branco rio, Espuma-esperma do cosmo. Fiz amor com a vida. Raios colorindo a alma. Fúria celeste espargindo em redemoinhos de sóis. Estilhaçando vitrais, taças, coração de argila, asas de topázio do anjo, catedrais.
Não mereço o céu. Quebraria o vaso branco do maná eterno. O cálice onde se bebe a poesia de Deus. Quebraria pingentes azuis de cascatas celestes, e nuvens espelhadas onde patinam anjos. Não mereço o céu. Quebraria o sol-gema que é o coração do Pai. E o mundo anoiteceria – Mea culpa!
Quebraria a rio de cristal onde Cristo lava o sangue das chagas. E a lágrima-rubi de Madalena. Sou céu de vidro estilhaçado. Tudo aniquilo com furor da alma. Tenho a força do amor elevada à potência das estrelas. Só o carinho suave de suas mãos de artista alteraria a rota da poeta ardente.
Manipulando o vidro na fornalha quente. De tuas mãos de artesão brotaria uma rosa lírica, azul, assim, de harmonia. Cândida. Etérea. Cristalina. E o anjo me plantaria em um ritual de lua & sinfonia, para sempre, em seu jardim.