Edição 5

Além da indefinição

Lindsey Rocha

da indefinição, há morcegos na janela. Curitiba morre em mim porque preciso deixá-la, como animais que deixam suas crias (elas poderão se virar sozinhas). Vivo olhando para o céu. Hábito adquirido pelo sono, pelas ressacas anoitecidas ao fim da tarde.

Nunca mais esquecerei o som desses morcegos madrugada adentro. Nunca mais esquecerei minha gata branca, animal cuja estima não posso explicar. Haverá outros olhos felinos, outras comidas industrializadas para colocar nos potes, mas jamais os mesmos pelos, jamais o mesmo calor, o mesmo ronronar.

Essa ternura animal me joga contra as paredes abandonadas de mim (pelagem de um mundo tão completo, tão seguro de si). Sim, foi bom viver aqui. Alegria. O sorriso um copo de leite iluminado entre o mato fosco dos desiludidos. Não, não tinha dinheiro guardado e até hoje não aprendi a arrecadar meu futuro.

Todas as notas verdes torradas com queijo, vinho, ração e condomínio - às vezes bar (trago a fumaça pra perto e já me embriago de novo com lembranças), às vezes peças que eu pregava em mim mesma. Enfim, moradia. Gata violão desenho morcego tecido textura homem texto mulher bebida sexo.

Voz. Alguém diria uma vida pop. Incoerente. Um emprego vinculado às crianças. Paz. Sempre tive um apreço especial por crianças. Não estas que dão a mão, mas aquelas que fogem correndo hiper-ativas loucas incompreendidas porque reais demais, flashes de insegurança.

São elas que me sobrevivem. Por elas lasco o beijo no muro sujo sem nojo. A cerveja convida à janela. A quinta cerveja solitária. Lembro meu pai cantando suas mágoas todas para mim no carro domingo passado. Ele canta, e eu não sabia. Em nome do pai deixo em casa a respiração comum e lanço-me ao fôlego absurdo da conveniência.

Churrascaria. Batidinha de amendoim. Rodízio de hipocrisias. No entanto, abraços sinceros. Diria que a tontura de agora são os tocos de cigarro na mão de resina - cinzeiro que ofereço ao lixo por que não posso mais comigo, não tenho mais o capricho de continuar e rezar e grunhir.

No entanto, amo. Devo então dissecar os cadáveres do ir e do vir. Alguém para me cremar? Alguém para ajoelhar no túmulo cinza de cigarro mentolado? Alguém acredita que amei? Que vi flores onde só havia estupro? Que meu corpo passeou por peles vazias de carinho tentando arrancar palavras doces do sintético, do artificial?