Edição 5

Esposas

Maria Angélica Abramo

Todas essas flores
Tão delicadas
Ferroam o homem

Como atropelo
Do trem
Na fricção dos trilhos
Esmigalhando sonhos

Toda ânsia
Feliz de cidade
E nenhum sonho

Sobrou da velha
Barriga, dos fios
Que caem
mês a mês

Coisa de homem
De meia idade
Nada pode conter

No trepa – trepa
Infância recorrida
Emoções contidas
Adubo para florescer
Vida e obra

Entre o lixo
O vidro partido
O coração rasgado

Mais um ato:

Ira de infância
Raios e cortes
no seu barato
no meio da noite

você que sabe de tudo

não dá prá ser feliz
no centro da cidade,
entre meia dúzia de copos
e um compromisso ?

viver é apenas
o trovão da sua
voz derramando
os raios de todas
as coisas erradas
sobre o copo que
um dia
sonhou ser poeta

Aliança e papel
Mala cheia de dinheiro
e prole

Duas baratas
dentro de uma caixa

sobraram promissórias
do colo delicioso e só

Os femininos papéis

Marido de chinelo
Canja de galinha

E os masculinos Sinais:

- Só prá tirar uma casquinha

você dá uma bicada
Em todas elas

vai ver você acertou!
Viver não era tudo isso

Descansa de molho
Sempre dando
passagem para
buceta mais novinha

Trovões te rasgam
Tímpanos e pele mesclada
De breu e pimenta
Nada por fazer
Fica o dito pelo não dito
Só teus sonhos idos
E os chinelos

Teus
sonhos idos
Tão fêmeos...
noites a fio
vida dupla
nas tetas de quem te
come o ordenado