Edição 6

Há neon respingando em minha cara

Alessandro Bartel

há neon respingando em minha cara

lágrimas enrugando cartas sem destinatário

palavras, sem sentido, ditas ao telefone

sobre a mesa, no porta-retrato, há sempre alguém sorrindo

aqui, onde o sol nunca nasce, sempre há alguém ficando

e outro partindo.

tem pizza fria no forno do fogão

toalha molhada sobre a cama

e há dias não desligo a tv

sobre a mesa, no porta-retrato, há sempre alguém sorrindo

aqui, onde nunca é meio-dia, sempre há alguém ficando

e outro partindo.

no inverno de noites sempre longas e frias

as ausências são mais percebidas

e as cervejas, quando bebidas sozinhas, são mais amargas

sobre a mesa, no porta-retrato, há sempre alguém sorrindo

aqui, onde noites são eternas, sempre há alguém ficando

e outro partindo.

a solidão me leva a acompanhar a poeira

que trafega pelo feixe de luz que vaza pela cortina rasgada

e me faz concluir que não há ninguém nesse mundo que valha a pena

sobre a mesa, no porta-retrato, há sempre alguém sorrindo

aqui, no meu porta-retrato, há um vidro trincado

sua foto rasgada

eu ficando .... você partindo.