Alguma poesia
não. não bastaria a poesia de algum bonde que despenca lua nos meus cílios num trapézio de pingentes onde a lapa carregada de pivetes nos teus arcos ferindo a fria noite como um tapa vai fazendo amor por entre os trilhos não bastaria a poesia cristalina se rasgando o corpo estão muitas meninas tentando a sorte em cada porta de metrô e nós poetas desvendando palavrinhas vamos dançando uma vertigem no tal circo voador não bastaria todo riso pelas praças nem o amor que os pombos tecem pelos milhos com os pardais despedaçando nas vidraças e as mulheres cuidando dos seus filhos não.
não bastaria delirar copacabana e esta coisa de sal que não me engana a lua na carne navalhando um charme gay e um cheiro de fêmea no ar devorador num corpo de anjo que não foi meu deus quem fez esse gosto de coisa do inferno como provar do amor no posto seis numa mistura de feitiço e fantasia entre as pedras e o mar do arpoador em altas ondas de mistérios que são vossos não.
não bastaria toda poesia que eu trago em minha alma um tanto porca este postal com uma imagem meio lorca um bondinho aterrisando lá na urca e esta cidade deitando água em meus destroços pois se o cristo redentor deixasse a pedra na certa nunca mais rezaria padre nossos e na certa só faria poesia com os meus ossos