Pensamentos são delicados
têm desejos delicados. Querem saber se eles pensam nelas de manhã, aquela lembrança que chega com as primeiras horas, como se o despertar já trouxesse consigo uma memória de amor. Essa lembrança é como um navio que ancora calmo, sem sobressaltos. Atraca por ali e fica balançando ao sabor das ondas por algumas horas.
Ouço até o ruído do casco batendo no cais. Aquele barulho de mar sem tempestade. À medida em que o tempo passa, a lembrança vira um transporte rápido. Um carro potente que passa zunindo em algumas horas do dia, interrompendo o tráfego das atividades mais corriqueiras.
Ela põe os óculos e pensa nele. Bate o cartão e pensa nele. Pede o cardápio e pensa que um dia haverá de comer ostras ou qualquer coisa que demande coragem e delicadeza. E nada como olhar um molusco para lembrar que o amor é vivo e come-se com o prazer de estalar a língua.
Mas ela pede um risoto, sem muita fome. Quando pensa nele é assim e derrete-se inteira na hora da sobremesa. Chocolate com morango. Seria bom. Não fosse a ausência e a saudade insana que passam como um carro veloz. Lá pelas 16 horas já é um tipo projetado para a Fórmula 1.
Com os nervos à flor da pele, com o dia passando sem nenhuma notícia. Vem a noite. A lembrança de um olhar estrelado , e que ela viu em plena luz do dia, mexe com sua sensibilidade. È nesta hora que pensamos nas sutilezas do amor. Nos toques que começam na nuca e descem pelas costas.
No abraço apertado que traz uma felicidade urgente e ofegante. A respiração presa como se o mundo parasse e o tempo ficasse suspenso num instante. E as bocas, ah! as bocas, do que são capazes em movimentos ininterruptos e cheios de criatividade. Cada pessoa tem um gosto único.
De uns gostamos mais, outros menos. Alguns são inesquecíveis como o vinho tinto de boa procedência. Aquele gosto encorpado de uvas bêbadas. E ela fica ali, embriagada de sonhos. Nesta hora as lembranças são um avião a jato. Embarcam e desembarcam nos seus pensamentos.
E há uma mistura de prazer e de saudade. De felicidade e de revolta porque as coisas do amor têm a magia do aparecimento e do desaparecimento súbito. E aquele avião entre as nuvens só deixa o barulho suspeito, de uma rapidez que até parece fuga. São os pensamentos zunindo, embarcando e desembarcando na mesma cabeça.
Uma pista sem muito controle, sem condição de pouso. Uma viagem, uma emoção fotográfica, uma cena e um flash, uma cena e um flash. Por que será que todas as lembranças voltam à noite? Visitas indiscretas atrapalhando o sono. Ela respira fundo. Aprendeu a meditar sobre a saudade.
E conversa consigo mesma dizendo: “O amor não tem dono, Ana, não tem dono.” É um barco que atraca de manhã em águas calmas, movimentos de peixe, colorido de algas. Sol que deixa seu corpo amolecido e quente. E às vezes desaparece como um navio que encontrou seu horizonte.
Feche os olhos e trate os pensamentos como passageiros. O amor é sempre chegada e partida. Embarque e desembarque. Estação da vida. Memória que nos afaga e perturba dia e noite. Lembrança que nos inferniza até que o coração deixe de bater. Então relaxe e mergulhe, Ana, mas sonhe nas profundezas, como uma criatura do mar.