Cortaziana
sempre pela casa e os irmãos. Cruzava o outro céu onde beijava as prostitutas e terminava procurando o anel de Moebius em paisagens estranhas. Entrelaçando frases e pensamentos que tremulavam no ar. Uma frase por vez. Sem pressa. Constante como uma goteira eterna.
Reconstruindo a cada palavra uma história que não era minha (é minha agora). Andando por galerias escondidas em prédios próximos realizava desenhos intrincados entre as passagens abertas, tomando, sempre que possível, um pouco de ar ou chuva fina. E essas galerias se pareciam a outras galerias que se conectavam nas profundezas de minha mente ás vezes clara, às vezes confusa.
Num fluxo turbulento de sentimentos que procurava sempre controlar. Pedais de bicicleta e cabelos ruivos soltos ao vento quente de um dia de verão. Eu nas sombras contemplando o brilho que os raios dourados do sol espargiam sobre teu corpo tornando-te irreal.
O perfume do campo invadindo a cidade e me levando com tua imagem para um tempo além do tempo, fora do tempo comum de todos os dias. Tua pele branca como o leite puro de uma fêmea cósmica, a mítica Grande Mãe, Pacha Mama industrializada. Deslizavas na claridade crua desse fustigante sol de verão, eu nas sombras à distância sem sequer sentir teu aroma.
Pedalavas, eu caminhava. Ias e vinhas, eu caminhava, observava e parava. Tantas vezes em sonhos, tantas vezes nas ruas pedalando ao sol e hoje não lembro de teu rosto nem sei teu nome. Eternizo os momentos em uma memória que se perderá em meus segredos de tumba.
Me arrastava carregando uma inércia enorme. Havia coisas que definitivamente não começava. Outras, não deixava de fazer. Com isso em mente abri novamente o livro sem saber porquê. E caminhava com os olhos pelas linhas regulares de páginas amareladas. Sem memória.
Apenas a seqüência de sensações que as palavras encadeavam em um passado que não me pertencia. Lentas, suculentas, palavras pronunciadas. Caminhava lentamente em um bosque profundo. Pés em um tapete de folhas de pinho. O silêncio denso, os aromas puros.
Acrescentando linhas desconexas ao diário de viagem como naturalista insólito. Fragmentos de poemas, pensamentos, liturgias místicas perdidas na memória de um continente desconhecido. A cada passo os aromas que subiam. O silêncio rompido. Com as mãos chegando próximo sem tocar nada.
Sem trilhas definidas para seguir. Apenas um caminhar constante que se alongava em uma espiral excêntrica. Para fora, como fazem os predadores. Há dias que são de recolhimento. Muitas vezes se encadeiam formando semanas, meses. Sem causa objetiva ou motivo lógico.
Pode ser no efervescente verão ou na pujante primavera. O recolhimento surge como um comportamento que se desenvolve independentemente. Costurando com os fios de campos energéticos de um universo desconhecido. Tentando lhe atribuir um propósito e uma lógica humana.
O teto universal de estrelas misteriosas pairando em algum ponto acima da luz de uma atmosfera amigável.