Preciso dar um jeito na vida
dar um jeito na vida pensou enquanto barbeava-se e gotas vermelhas sujavam o branco da pia caótica respirou fundo e olhou-se no espelho vendo um vulto que parecia um vampiro anêmico suspirou e bafejou contra o reflexo um hálito quente recheados de porres marcioméricos anomalias urbanas os dentes em petição de miséria a língua cega a garganta escura Preciso dar um jeito na vida Sempre pensava assim pela manhã preciso despertar meu anjo da guarda implantar leis ordens métodos eficientes preciso religar o telefone dos compromissos desligar a tv procurar john fante entre os escombros da abril preciso dar uma geral nas coronárias entupidas de angústia precoce preciso limpar o ego Preciso dar um jeito na vida Pensou enquanto sua vida coagulava-se na pia enquanto planos transformavam-se em espuma enquanto o shampoo anticaspa arrancava-lhe idéias soberbas das poucas que resistiam ao tédio inexorável um filete de sangue saía do nariz as narinas, um museu de cocaína e fome tinham fome de mais, mais, mais Preciso dar um jeito na vida E a vida evaporou-se com a água do chuveiro e a blue blade ávida de pulsos matou a fome enquanto seus últimos dez batimentos ecoavam pelos azulejos antiquados abraçou-se ao vaso sanitário e viu Deus e Deus olhou pra ele chutou sua bunda magra e disse: Você precisa dar um jeito na vida.
(Márcio Américo - 1998)