Edição 6

A dor ensina a gemer

Nicole Louise

como dormir a noite inteira e ainda assim acordar cansada. Você quer levantar, quer andar, quer abrir a janela e ver a luz do sol, mas os olhos pesam, as pernas tremem, a cabeça gira. É uma mistura de frio e calor... - Você nunca tem forças pra sair da cama?

– ela me ouve, mas encontra um jeito de responder e sem perder a postura indiferente, continua olhando pra janela e falando baixo e devagar, como se conversasse consigo mesma. - Você ouve alguém dizer que é preciso buscar forças em algum lugar, mas você não tem a força que é preciso pra levantar da cama e buscar mais força, onde quer que ela esteja.

E quando alguém entra no quarto e começa a falar sobre a força interior, em silêncio você pensa: “Não me venha com essa de que a força está dentro de mim, quando dentro de mim não há nada, além de confusão e angustia...” - Você realmente acredita que é só isso mesmo que existe dentro de você?

- Não... mas é que todo o resto parece ser anulado, abafado, pela força dessas duas coisas. Quando existe muita confusão e muito angustia dentro de uma só mente é impossível que nela também haja muito espaço para coisas como amor ao próximo, ou até mesmo para o amor próprio, porque o seu sofrimento passa a ser o centro do universo.

- Você já havia pensado em se matar outras vezes? – o olhar perdido rumo à janela, transformou-se num olhar fixo no movimento da cortina branca, que com a ajuda do vento, formava ondas no ar. Ela cerra os olhos repetidas vezes e demora alguns segundos para formular frases inteiras, como se estivesse lembrando e narrando uma cena já vista.

- Você não quer se matar, mas manter os olhos abertos é tarefa cada vez mais difícil. Você não quer morrer, apenas não tem força pra viver. E nesse estágio, viver passa a ser qualquer coisa parecida com se cortar e continuar sangrando por dias a fio...

E é aí que você começa a pensar em prédios altos, objetos pontiagudos, cordas e armas de fogo... E de repente você se pega desejando que tudo fosse mais fácil, e rápido, inclusive dar um fim a própria vida. Mas nada é. Nunca é. E você percebe que até pra chegar ao fim é preciso sentir algum tipo de dor.

- Por que você não descansa um pouco? Por que não dorme um pouco? Não está dizendo coisa com coisa... - Se é o que acha por que ainda está me ouvindo? - Porque eu acredito que você tenha que aprender a controlar seus pensamentos, suas emoções... e eu quero ajudar.

- Você não entende... Não há nada que eu não sinta. Quando eu tinha 17 anos o meu primeiro namorado me disse: “Há uma coisa que me faz te amar e ao mesmo tempo temer por você: a sua capacidade de sentir. Você sente cada emoção até o fim, com todos os poros do seu corpo.

Você tem coragem de encarar seus sentimentos, de lutar por eles, e você os leva muito a sério. O problema é que isso ainda vai te fazer matar... ou morrer.” - Viu só? Ele estava certo. Você é intensa demais, não sabe lidar com tudo o que sente. Com as frustrações, as perdas...

Sei que é difícil enfrentá-las, mas você parece receber cada uma delas como se fossem raios que te atingem em cheio. - Viver desse jeito está longe de ser um estilo de vida. Porque é como querer uma pílula pra acordar, e ao acordar, querer uma outra pra dormir.

Mas é isso que você deseja, porque acaba ficando insuportável si enxergar mergulhada no mais profundo estágio de inércia. E pior que isso é permanecer completamente lúcida, é observar a ausência de disposição pra agir com total clareza. Você sabe que está se matando, e não estou falando do momento em que você finalmente escolhe como morrer, mas sim dos dias em que você se entrega à fraqueza...

- O que não entendo é o porquê de você nunca fala por si? Por que sempre usa o “você”, ao invés do “eu”... - Por que não estou falando só de mim, ou dos cortes no meu pulso. Estou falando de você também. - De mim?! Mas foi você quem tentou se matar...

- Você não quer me ajudar. Quer ajudar a si mesma. Se você não sentisse que tem motivos, ou, ao menos, a infame capacidade de um dia tentar fazer o mesmo, você não estaria trabalhando numa clínica como essa e não passaria tanto tempo me fazendo perguntas como as que fez, nas últimas semanas...

Você não é uma terapeuta, é uma enfermeira. Quisera eu poder acreditar que é só solidariedade, generosidade, o que te faz ficar aqui, todos esses dias com a “pobre moça que tentou se matar e não conseguiu” e que agora tem que enfrentar os olhos piedosos de todos os que acham que ela é louca.

Mas sei que não é. Você tem medo de vir a estar na mesma situação que eu e quer evitar que isso lhe aconteça. A diferença entre nós duas é que você tenta encontrar na vida dos outros a resposta pro que te faz pensar em acabar com a sua própria vida, enquanto eu sempre soube o que me fez pensar em acabar com a minha.