Edição 6

Headphone

Pedro Pellegrino

inventou o headphone foi um gênio". Juliana sempre acordava com esse pensamento. Acordava, pegava o disc-man, colocava o headphone e já era... Assim eram todas as manhãs. Seu irmão que dormia do lado, sempre reclamava: "que porra de música é essa?! " Juliana nem ligava , pra falar a verdade nem escutava o que os outros diziam .

Era só bom dia e mais nada, voltava para o headphone. Headphone e o disc-man eram seus únicos amigos. Pouco se importava o que as pessoas iriam pensar, queria mais era colocar no volume 10. Muitas vezes perdeu o ônibus da escola, só para escutar mais uma vez aquela música.

Garotos a convidam para sair, para tomar um sorvete, ela dizia: "hoje não dá, tenho que comprar um cd" Eles ficavam desapontados, ela era uma garota bonita. "O legal de sempre usar headphone é que dá pra fingir que não tá escutando nada”. Ela se divertia, mas ás vezes não acreditava no que sua própria família falava.

As "amigas" se perguntavam: “como que a Juliana consegue passar de ano?". O segredo era que copiava tudo da lousa, tudo mesmo, não escapava nem uma vírgula. Tinha dias em que ela em vez de escrever o que estava escrito na lousa, acabava escrevendo uma letra da música que rolava no seu disc-man.

Tomou várias advertências do diretor, mas sua mãe dava sempre um jeito.Falava que a menina possuía um distúrbio, e se alguém tentasse tirar o headphone dos ouvidos dela, virava uma louca. Seu irmão uma vez tentou, apanhou tanto que nunca mais tomou a mesma atitude.

Reclamava, mas mexer no headphone da sua irmã, nem se o Papa pedisse. Uma vez um desses caras que puxam papo com todo mundo , perguntou pra ela : "o que você está ouvindo ? " " Som " " Que tipo ? " "Um tipo que você não tem a menor idéia do que pode ser , não vai gostar ...

aliás , você não tem capacidade para xavecar uma garota , quanto mais curtir o som que eu estou ouvindo". O cara olhou para baixo e procurou sair o mais depressa possível. Sua fama no colégio já era clara, nunca pergunte o que ela está ouvindo e nem toque nela.

Juliana ia levando sua vida... Cada semana um cd novo, uma sensação diferente, um acorde de guitarra que parecia ter sido feito por encomenda. Juliana gostava também de escrever e ler. Escrevia histórias eróticas e lia revistas de futebol. Parecia estranho, mas para ela não.

Um dia um garoto escreveu um bilhete: "Juliana não sei se você me conhece, mas eu quero dizer que te acho muito bonita, você gostaria de sair comigo? Tem um cinema aqui perto, nós podemos ir, você gosta de cinema? Por favor, me responda, eu sei que você não gosta que ninguém te toque e muito menos que fale com você, me mande um bilhete" (escreveu o nome e disse como queria conhecer ela melhor).

Ela leu o bilhete que estava dentro de seu estojo e respondeu na hora: “eu sei quem é você sim, cinema? Não sei, acho muito estranho, o som fica muito distante, eles deveriam dar um headphone para cada pessoa, mas obrigado pelo convite, você foi o primeiro que soube chegar em mim, olha eu vô ser cara de pau, eu tô querendo um cd de rock (ela diz o nome da banda) se você quiser me dar eu ficarei muito contente e quem sabe algum dia a gente pode sair”.

O garoto juntou sua mesada, pediu um dinheiro para seu avô e comprou o cd. Ele ficou com medo que ela já tivesse comprado, porque já tinham se passado mais de 30 dias. Lá foi ele entregar o cd. Juliana abaixa o volume do disc - man, dá um pequeno sorriso, tira o headphone e diz: "obrigada, era esse mesmo”.

Na hora em que o garoto ia falar alguma coisa, ela colocou o headphone, subiu a escada em direção à classe. O que Juliana não esperava era que ele continuasse a fazer isso, um bilhete, o nome do cd que ela queria, um obrigado e mais nada. Isso durou uns 6 meses , até que o garoto em vez de dar um cd para ela , entregou dois .

Ela ficou espantada: "o que é esse outro?!?! ". "É um cd que fiz pra você” “Ah” Chegando em casa Juliana tirou a roupa do colégio e foi para a banheira.Era lá que ela gostava de escutar os cds novos da primeira vez. Começou a ouvir... Gostou da primeira música...

Da segunda... Terceira. Não estava acreditando o garoto tinha bom gosto. Só que a surpresa era que depois da terceira, o cd parava e a voz do garoto começava a sair no headphone. Juliana ficou ressabiada , era a voz do garoto do bilhete dizendo coisas para ela, dizia que nunca tinha conhecido uma garota assim, que estava doido por ela, toda aquela mesma baboseira que as pessoas falam quando estão apaixonadas umas pelas outras.

No primeiro momento Juliana quis desligar, mas a curiosidade era maior. Quando ela percebeu, já estava umas 6 horas dentro da banheira ouvindo aquele cd. Depois de a pilha acabar, Juliana saiu da banheira, tirou o headphone, era hora do jantar, abre a porta do banheiro e não vê mais nada...

Parecia um incêndio.