Edição 7

Eu não morri ainda

Cesar Ribeiro

a luz ao sair Autor Cesar Ribeiro Às vésperas da visita do embaixador de Deus à Brasiléia, comecei a pensar nas antigas estruturas e nos tradicionais diretores da velha sociedade em que vivemos. Não importa que a religião tenha sido responsável por inúmeros massacres ao longo da história, que a idéia de um deus a regular o humano leve a um comodismo diante da existência ao sacar a noção de uma bondade desinteressada e que isso seja um próprio contra-senso em relação à literatura bíblica.

Assim como também não importa a consciência de que a Terra está indo pro buraco depois de décadas de capitalismo exacerbado. A sustentação deste sistema social, de máquinas à frente dos homens, está com seus dias contados, como mostrou o filósofo e teólogo Leonardo Boff em artigo intitulado “Em busca da Arca de Noé”, ao citar uma conclusão do especialista em biodiversidade Edward Wilson: seria necessário mais três terras iguais a esta para universalizar os bens dos países industrializados.

Enquanto isso, nos Estados Unidos há a briga para continuar a ocupação do Iraque, ainda que inúmeros indivíduos sejam mortos cotidianamente numa guerra sem sentido e cuja premissa é reconhecidamente mentirosa. A televisão aberta chora suas naftalinas e tenta recorrer a algum Tio Patinhas ou Professor Pardal que a libere do fatal destino diante do avanço tecnológico, que liberou as pessoas para conteúdos disponíveis em outros aparatos, como celular, internet e TVs fechadas.

Haverá agora a televisão digital, e conseqüentemente a intensificação da segmentação. Mas ainda assim é seguida a velha fórmula jornalismo vazio, dramaturgia frágil e muito esporte para segurar o tranco. Por aqui, juízes são presos inventando sentenças, advogados aparecem nas câmeras escondidas discutindo a propina para liberar o traficante Zé do Saquinho Branco, apresentadores de programas de anjinhos são detidos nos States, pipoca chumbo para todo lado nas favelas cariocas, morre mais gente assassinada do que em uma guerra civil.

Mas a publicidade continua mostrando que comer a deliciosa manteiga fará você bonito e feliz e usar aquele creme contra rugas tornará você a mais gata de todos os séculos ainda que sua idade seja 975 anos. O fato é que, com tanto absurdo e tanta informação, ninguém sabe coisa alguma, e os poucos que sabem algo tentam afastar a pólvora das mãos com medo das portas do presídio ou manicômio serem trancadas.

Sabemos que caminhamos para o fim, que seguindo a linha atual de produção para sustentação das instituições e indivíduos os recursos da Terra se esgotarão, sabemos que a sobrevivência da economia atual não abriga espaço para todos os indivíduos. Ou seja, para financiarmos a sociedade como ela está é necessária a criação de excluídos.

Vem sendo assim há muito tempo, mas o funil aperta e hoje há um grito quase impossível de não enxergar: o aquecimento global como prova de que estamos no caminho errado. Mas continuamos abrindo portas para entrar na indústria e montar a maior quantidade possível de automóveis, continuamos tomando nossos longos banhos e utilizando os produtos vendidos pelas mídias como benéficos à nossa saúde ainda que destruam a saúde social, continuamos apresentando velhas novelas sobre o infindável e proibido amor do Jericoaquara Megamix com a Lindalva Feiolina e continuamos produzindo velhas pecinhas de teatro sobre desvio de verbas para a massa sorrir ao final do espetáculo, ao lado das pizzas e pipocas desta nossa vida fragilmente encenada.

Até quando? .