Edição 7

Nórdica

Daniel Cavana

entre o sono e a vigília. Busco o eixo do mundo. Desço por raízes atrás dos mundos subterrâneos. Caminho como um guerreiro hostil. Acima do mundo dos homens procuro o Sol e a Lua, como os ramos altos de uma árvore mítica que roça as nuvens. Domínio de deuses, palácios de cristal.

Construídos a sangue e fogo. Um delírio não percebido. Um freixo mítico das terras geladas me trouxe lembranças ancestrais. Aquelas que não vivi. Trilha genética perdida na memória de um corpo que não conheço. Muito atrás. Em um vale perdido nos labirintos do hades.

Memória orgânica que submerge quando quer. Recomeçando caminhos que não sei de onde vem. Vertigem visceral que pulsa latente, esperando o instante de subir à superfície. Trocaria meu olho direito por sabedoria. Não a tenho. Toco o cabo de minha espada.

Tantas lutas gravadas. O retinir da lâmina deixando a bainha. O silvo fúnebre cortando o ar. Uma explosão vermelha cobrindo o sol da manhã. Chuva de rubis. Os lábios secos e um giro rápido. Uma varrida à esquerda descendo em ângulo. Recolho a perna esquerda e estoco em um torção impossível.

Retiro a lâmina de mais um corpo inerte. Olho ao redor. Excitado relincha o garanhão de oito patas entre as árvores da floresta. Tanatos sorri em um canto do campo. Gotas rubras escorrem de meu corpo. Um odor amendoado sobe do solo coberto por corpos.

Gemidos e gritos sufocados se espalham no ar. Para mim tudo é lento. Ainda sinto os cabos das espadas fundidos a minhas mãos. O corpo retesado. O peito arfando. Coração batendo forte e ritmado. A pele fria e os músculos inflados. Como raízes meus pés tocam o solo.

Espreito. Uma ave estranhamente branca reluz ao voar. Poucos estão de pé. Estamos distantes. Parados. Nossos olhares contemplam através de uma névoa estranha. Não há mais escaramuças. Não há perdedores ou ganhadores, apenas sobreviventes da insanidade do combate.

A sacerdotisa caminha nua em minha direção. O colar de ouro toca de leve em seus seios a cada passo. A Terra sente sua fertilidade. Ela toca meu rosto. Uma brisa suave agita seus cabelos dourados. Em sua sabedoria toca meu peito com seu rosto. Me envolve com seus braços suaves.

Seu odor me envolve. Um trovão e a deusa loura do trigo desaparece. À minha frente apenas o ar que começa a girar. A fumaça se espirala cada vez mais rápida. Redemoinho espectral. No centro gira um martelo. Preciso, vingador. Corre pelo campo de batalha.

As folhas não se levantam a sua passagem. O redemoinho some entre as árvores da floresta. Dou o primeiro passo. Caminho por uma terra de gigantes. Começa uma chuva fina e as mortes da batalha se contabilizam. A água lava aos poucos o sangue e penetra nas feridas.

Desço até um córrego próximo. Lavo as lâminas ainda quentes. Embainho as espadas. Me levanto e sigo seu curso para algum lugar. Caminho em seu leito rochoso. Procuro o mar.