Edição 7

Incondicionalmente brilhante

Larissa Tanganelli

que se arrependeria depois. Não gostava ensaiar de mais com pensamentos e reflexões profundas antes de fazer as coisas. Tomava decisões rapidamente, seguia geralmente a primeira coisa que vinha em sua cabeça. Seguiu em frente, virou de uma vez só e o líquido desceu cortando a garganta, saiu sem pegar o troco, saiu na calçada molhada, saiu respirando o ar cheio de partículas de uma noite inacabada.

Acabou sem pegar um táxi como planejava, decidiu ir andando. Sem nenhum propósito para isso, só sentiu que seria melhor. Melhor ainda seria comprar alguma coisa para comer, tinha mais álcool que plasma no seu sangue correndo e rasgando suas veias. Não viu nenhuma padaria ou buteco aberto, nada estava mais aberto àquela hora.

Nem estava com fome mesmo. Abriu a bolsa: batom, celular, lápis de olho, sombra, espelho, papéis jogados, alguns guardanapos contendo linhas que escrevera na mesa do bar, caneta, elástico de cabelo, um livro de bolso que já tinha acabado a uma semana, contentou-se com o último cigarro amassado que estava caído no canto da bolsa.

Olhou o relógio, não viu nada, não conseguia focar os números e muito menos prestar atenção. Continuou andando, mesmo de vez em quando duvidando que sue sapato de salto quinze fosse continuar a permitir tal ato. Passou algumas esquinas sozinhas, passaram alguns carros esquentando o asfalto, passou sem dar muita importância ao que se passava.

Empurrou com certa dificuldade a porta impossivelmente pesada do hall, entrou no elevador aceitando o apoio da parede. Ficou por vários extensos minutos tentando estabelecer um acordo entre a fechadura e a chave que pareciam não querer colaborar para a porta abrir-se.

Entrou, trancou (ou pelo menos teve a impressão de ter trancado) a porta, atirou a bolsa na mesa e depois seus braços na borda da sacada. A cidade estava linda, estava sempre linda, não importava o que acontecia, não importavam os milhares de pessoas se fudendo lá em baixo, comendo as porcarias que elas mesmas estragaram e engolindo as merdas dos outros, as luzes estavam todas acesas como sempre, todas reluzentes, todas brilhantes, todas encantando a noite cheia de vazios.

Adorava aquela paisagem, poderia escolher ficar para toda a eternidade lá, sozinha e em silêncio com aquela beleza convincente espelhando apenas o que era bom e refletindo a serenidade inesgotável nos seus olhos. Mas não ficaria, talvez porque não quisesse por ter vontade de continuar outras coisas, talvez porque realmente, simplesmente não pudesse.

Sentiu o vento esfriando seu rosto mais do que o normal, sentiu uma gota cair na sua mão, sentiu os dedos molhados ao deslizarem sobre a face. Sentiu lágrimas e mais lágrimas formando-se e caindo aos montes continuamente, sentiu a testa franzir, sentiu a garganta apertada se estreitar, mas não sentiu nada.

Ficou com o fisiológico atuando sem sentir nada de verdade. Talvez porque não soubesse o que sentia, talvez porque fez o que quis fazer e não o que havia sido estipulado em suas próprias metas. O barulho da cidade sumiu e o brilho borrou, ela entrou e jogou-se no sofá.

Não tinha mais ninguém e ninguém iria chegar. Ela escolheu não ter ninguém para chegar naquele momento, não queria mesmo repartir aquele seu admirável estado deplorável. Deitou no sofá enquanto ele se encarregava de acabar de estraçalhar sua coluna que se esticava.

Não tinha ninguém. Sabia desde o começo que se arrependeria em algum momento, mas não naquela noite. Fez um esforço para alcançar o maço de cigarro na mesinha de centro. Acendeu mais um. Olhou para o monte de livros atirados no canto da sala, no chão, alguns sobre as mesas, sobre o móvel da televisão sem televisão, prestou atenção nas folhas e resumos espalhados por todas as partes, para as canetas, para o computador, para aqueles móveis baratos e aquela sala sem um só enfeite, sem lustres, sem decorações, sem nada a não ser o que ela precisava e gostava.

Deu mais uma tragada e sorriu. As lágrimas já tinham secado. Sorriu no escuro, com a iluminação da cidade que chegava no vigésimo segundo andar. Gostava das coisas assim, era tudo que sempre quis. Era realmente feliz, e era tudo mérito seu. Apesar de ninguém acreditar, ela de fato adorava aquilo.

Não possuía mais forças para ir até o banheiro e retirar as lentes de contato, jogou a bituca do cigarro em qualquer canto, o chão já tinha se acostumado com milhares delas usadas e esquecidas. Acomodou-se, fechou os olhos, no dia seguinte acordaria com a maquiagem que enrugava sua pele e com mais alguns neurônios e alvéolos danificados.

Dormiu detonada, na casa suja e vazia, com as luzes da cidade lá fora brilhando incondicionalmente, com os casais brigando e os carros batendo.