Edição 7

Sentado frente ao computador

Márcio Américo

frente ao computador, a cabeça inclinada, os olhos na tela branca, cigarros de 15 em 15 minutos, café e um cachorro, estes são os dias, a janela semi aberta e pessoas passando lá fora, a tela branca me olhando, pedindo que eu faça alguma coisa por ela, que eu a preencha, feito uma mulher de pernas abertas ela me olha e insiste que eu faça algo, nem sempre consigo, as vezes brocho, abro um velho jogo e mando ver no teclado, chutando bola em gramados virtuais, rallyes, sapos que não conseguem atravessar uma rua, e atrás de tudo a tela branca, sempre a tela branca, esperando, seu desejo alto alto alto.

Penso em abandonar tudo, mandar a tela se foder, desinstalar o world, o bloco de notas, tudo que esteja ligado diretamente a esta porra de escrever, tento lembrar-me de que esta porra não dá dinheiro, que é um oficio solitário e que diferente de outras artes eu dificilmente vejo os caras degustando a parada, porque o que eu produzo solitariamente também é consumido solitariamente.

A tela branca, sempre branca, uma conexão imaginária com o cérebro descarregando ali arquivos mortos, vivos e agonizantes, estertores de uma mente doente. A tela branca, sempre vejo a tela branca e então penso: Jesus, como eu adoro esta porra!