Edição 8

Árvore branca

Beatriz Bajo

...é ao caminhar que se catam pedaços de vida. Como se na quietude do passo, aproxima-se a um espaço ainda não percorrido para dentro. Quanto mais se anda mais se entra. Mas não me dava conta disso ao praticar a flânerie de meus anseios de mais vida. Era uma busca pelo corpo saudável para purgar a nicotina das noites em tragos.

Sete voltas pelo aeroporto assim como quisera pisar numa asa por descuido para que os pés chegassem, acaso, onde sempre esteve minha cabeça. Quiçá o objetivo fosse, realmente, esse de cuidar por um equilíbrio insano de lançar-me aos céus inteira e comungar com sonhos de pássaros.

No entanto, não dei por esse juízo e permanecia às voltas, como um cão, atrás do meu rabo para que pudesse dirigir com habilidade minha fantasia de vôo. Acompanha-me sempre a maternidade porque necessito do pertencimento em meio à orfandade da rua para tornar-me mais complacente e misericordiosa.

Também para religar-me à eterna gravidez das calçadas. E assim caminho à margem. Testemunha ocular de sempre em redoma com meu passo à beira. E dessa vez em que tropeçava em minhas nodosas raízes, a árvore branca me encontrou. Branco o meu desejo de tarde grisalha.

Retrato de nuvem. Brincava de nevar comigo em pálido sorriso, quase líquido. Babava em pétalas. Distraía-me de encostar meus pés ao chão. Vacilava de terra pisando em pedaços de seu leite floral. Escarnecia-me quebrar galhos sem rimas em nossa conversa ramificada.

Um pano de fundo enciumado se rompeu em antiga lágrima que me grita. A flor branca entrou sob os tênis de pés apressados em não ver. No terceiro passo, virei-me na tentativa de adiar a partida ou — quem soube? — despedir e voltar ao entorno. Não a enxerguei.

Porventura jamais a alcançaria novamente. Um poste, uma nuvem, talvez um desejo.