Edição 8

Uma medusa notívaga na São João

Jarbas Capusso Filho

- Eu não posso descobrir mais nada sobre mim esta noite, compreende?
Ela não disse nada. Deu mais um gole naquele absinto com algumas gotas de groselha e olhou nos meus olhos. Ela fez bem mais que isso. Com o seu olhar ela vasculhava o meu, à procura da minha alma. Tentava, silenciosamente, educadamente, achar o rastro da minha alma, lá no fundo das minhas entranhas.
- Acho que vai chover. Sempre chove na são joão, às quatro da manhã. Se chover a gente pode se abrigar em algum lugar que não amanheça. O que você acha?
Não adianta. Seus olhos mudam de cor e o baton nunca acaba. Ela não retocou o baton a noite toda. E não praguejou contra a vida, como era costume naquele bar. Olhei para a rua e as pessoas tinham formado uma platéia na calçada. Todos sentados, em silêncio, alguns rezavam e outros, só fornicavam, esperando um desfecho.
- Você acredita na vida após a morte? Acredita? Talvez eu não queira reencarnar. Não queira. Tenho vertigens com a vida e não gosto quando as pessoas ficam esperando algo de mim, compreende? Você seria capaz de me entender?
Seus olhos estavam marejados de um liquido viscoso e mal cheiroso. Não sei se ela estava chorando. Não era isso que eu esperava. Ela ainda não disse o seu nome. Só sei o cheiro do seu perfume e que gosta de absinto com groselha. Talvez ela goste de musica clássica e de rir um riso frouxo, em velórios. Têm mulheres que são assim. Riem em velórios por pura ingratidão ou, talvez, desapego à vida.
- Eu poderia comprar um carro. Um carro usado, velho. Mas em condições de levar-nos pruma outra cidade, compreende? Esse carro poderia levar-nos pruma outra situação emocional. Talvez você seja aquele tipo de pessoa que precise conhecer outras paragens. Sentir outros aromas e estranhar a cama. Gosta de dormir olhando as estrelas? Gosta de sentir saudade de um lugar que nunca esteve? Diga-me. Sente alguma necessidade? Porque eu sinto. Eu sinto vontade de não ser reconhecido por ninguém. De dormir nas calçadas e poder roncar o meu ronco de desprezo. Sei que faríamos uma ótima dupla. Você e eu e toda essa necessidade absurda que temos de viver, morrer pelo nada.
Ela é uma mulher reencarnada. Tenho certeza. Ela voltou sabendo exatamente como não errar o mesmo erro. Olha-me com o desprezo e o tesão que só as putas reencarnadas olham. Ela sabe do meu desespero e sabe que logo vai amanhecer. Sabe do meu infortúnio e da minha doença. Ela não pode fazer nada por mim. Nem me beijar. Ela só olha nos meus olhos e vasculha. Sinto meus órgãos todos se remexendo lá dentro. Sinto suas unhas mal feitas e descascadas afastando o meu fígado à procura de algo comprometedor. Se ela achar alguma coisa, estou frito. Aí, só com o todo poderoso ou pior, só com o demônio.
- Olha, nunca vendi a minha alma, compreende. Eu nunca vendi. Se bem que, em muitos momentos, teria sido preferível que eu à tivesse vendido. Por alguns trocados que fosse, por uma dose a mais, ou naquela vez que chorei de desespero com o vazio. Vazio do quarto entende. Mas eu não vendi. E não foi por uma questão moral não. Não vendi porque sou um mau negociador. Sempre fui. Desde o meu nascimento. Alias, foi o meu primeiro mal negócio. O meu nascimento.
Ela se levantou. Olhou-me o seu ultimo olhar. Até tentei decifrar aquilo. Aquele olhar. Uma medusa notívaga na são joão. Ela não tinha condições de me perdoar. Ela não tinha condições de entender a minha angustia e, mais do que isso, ela sabia da minha sentença. Ela sabia da minha miséria e da minha solidão de criança. Ela não tinha pena e nem poderia ter. Ela não voltou pra isso. Ela era uma puta reencarnada e só estava lá para me ouvir e tentar achar a minha alma. Essa alma que não tinha sido vendida por pura falta de reflexão. E ela pagou o absinto em dinheiro vivo. Em dinheiro de outra encarnação. Deus lhe dava ajuda de custo e a mim, solidão. A puta reencarnada estava partindo. Não me beijou e nem disse adeus. Ela sabia. Fiquei no balcão do bar, de frente pra ela. O dia amanhecia. Eu estava condenado. A mais um dia.